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Por Sergio Maduro

Cao Jun, “Pássaros na queda d’água”, técnica mista sobre papel

“Quanto mais entendemos o Ocidente, mais valorizamos nossa própria cultura. Nossa cultura tradicional, cultura socialista e até mesmo a Revolução Cultural e o maoismo são valiosos. Somente se formos capazes de combinar essas tradições com a cultura ocidental, poderemos criar a arte do futuro… A vanguarda chinesa deve ser mostrada ao povo chinês, em vez de apenas atender ao gosto dos curadores ocidentais.”

Essa declaração do artista Xu Bing, conhecido por fazer uma ponte entre a arte do Ocidente e a do Oriente, é uma síntese da postura de muitos artistas chineses contemporâneos. E ele prossegue:

“Meu novo trabalho (…) pode parecer transnacional e contemporâneo e incorpora novas tecnologias. No entanto, a chave para a minha inspiração (…) vem do nosso tradicional ideograma. O povo chinês é o mais sensível aos escritos pictóricos, por isso estou tão interessado nessa iconografia.”

A fala do artista lembra a singular densidade cultural da arte chinesa, que condensa as primeiras manifestações primitivas de milhares de anos atrás, atravessa séculos e dinastias, cruza a república nacionalista, a influência da arte soviética e a Revolução Cultural. Mais recentemente, com o movimento conhecido por Nova Onda 1985, voltou-se para o mundo globalizado a fim de fazer um balanço e seguir em frente.

Primeiros intercâmbios

Já no século 18, a história registra a presença do artista e missionário italiano Giuseppe Castiglione (1688-1766), que chegou à China com 27 anos e lá permaneceu por cerca de 50 anos. Nesse meio século, encantou a corte da dinastia Qing com seus trabalhos, que combinavam técnicas e temas do Ocidente e do Oriente. Castiglione teve o privilégio (raríssimo para um estrangeiro) de trabalhar dentro dos muros da Cidade Proibida e retratar facetas da nobreza chinesa.

No século 18, Castiglione combinou perspectiva ocidental e técnicas chinesas

Arte global

Sob o ponto de vista mundial, 1989 pode ser considerado o ano da globalização da arte. Nessa data, o Ocidente colocou em questão seu próprio eurocentrismo ao ver o Muro de Berlim cair e a Guerra Fria terminar. As relações entre os países descongelaram e a economia chinesa se abriu para o mundo.

A partir do final dos anos 1980, o planeta percebeu que a arte criada na China era uma reserva vital de temas, reflexões e técnicas, antes guardadas no interior de suas fronteiras e que passaram a constituir, em termos globais, um comentário artístico oportuno e mais que bem-vindo à cena mundial.

Com as transformações da China nos 30 anos seguintes, a arte local inseriu-se como verdadeira commodity no mercado internacional e voltou, para si e para o mundo, uma visão crítica, refletindo os novos costumes e suas transformações políticas, sociais e econômicas, que representavam um contraponto quase único ao consenso ocidental.

Trata-se de uma arte que às vezes refuta, às vezes incorpora, mas nunca esquece as técnicas variadas e originais de que lançou mão ao longo de sua longa história, seja na pintura, na caligrafia, nas esculturas etc.

Museu de Arte Moderna de Xangai

Em contrapartida, alguns trabalhos dessa era de abertura refletem o temor da dissolução identitária no mundo e voltam a investigar as raízes chinesas. Seus protagonistas são filhos ou netos de uma China agrária e provinciana, na verdade, artistas nascidos após a Revolução Cultural, criados em metrópoles globalizadas e imersos na comunicação digital.

Por tudo isso, somente no final do século passado, as categorias ocidentais começaram a ser usadas para classificar a arte chinesa, numa tentativa de compreender e apreender esse novo universo. O resultado disso era palpável: se até os anos 1970, artistas chineses estavam quase ausentes do cenário internacional; em 1999, às portas do século 21, um quarto dos artistas presentes na Bienal de Veneza vinha da China.

O papel da arte chinesa

Quais heranças a arte contemporânea chinesa remexe, pensa, enaltece ou critica?

O artista Xu Bing criou um “alfabeto caligráfico” para escrever letras ociden- tais em forma de caracteres chineses. A caligrafia no alto da página está escrita em inglês e diz: “Learning
from the past, moving forward in time” (aprendendo com o passado, seguindo adiante no tempo).
Você consegue ler?

A importância dos melhoramentos técnicos é sempre determinante quando se fala de estilos na arte da China. Desde há 2 mil anos, fibras vegetais, em geral de cânhamo, amoreira asiática ou linho, eram fervidas e maceradas até se tornarem celulose. O papel tem sido, então, o mais importante suporte material da arte no país.

Foi entre 475 a.C. e 221 a.C. que a pintura tradicional tomou suas formas iniciais: o desenho de linhas usando pincel (feito de pelo macio de ovelha, doninha ou coelho) e tinta (confeccionada com carvão de pinheiro misturado a óleos, ervas e especiarias, resultando num bastão que, desgastado contra uma pedra, virava tinta ao ser diluído em água). Os chamados “quatro tesouros” da arte ficaram, assim, irmanados: o pincel, a tinta em bastão, o tinteiro de pedra e o papel.

Os tipos de papel, por sua vez, determinaram técnicas diferentes e o mais famoso é o Xuan, desenvolvido durante a dinastia Song (960-1127). De textura mais flexível, resistente e absorvente, registra com mais fidelidade a pressão e a rapidez das pinceladas e é elemento fundamental para o desenvolvimento da caligrafia e da pintura na China. Sua importância é tão grande que, em 2009, seu processo de fabricação foi considerado pela Unesco patrimônio imaterial da humanidade.

Os temas preferidos da pintura chinesa são as paisagens, as personagens e as flores associadas a animais, principalmente pássaros. Detalhistas, alguns estilos se caracterizam pelo estudo aprofundado das flores conforme elas se apresentam em cada estação do ano, por exemplo.

A pintura de flores e pássaros, aliás, tornou-se um gênero importante e autônomo na arte oriental. O assunto principal desse gênero inclui a combinação de, pelo menos, dois elementos entre flores, plantas, frutas, rochas, pássaros, insetos e outros animais. Peixes, pássaros, gatos, cavalos e galos são os preferidos. Ameixas, orquídeas, bambus, crisântemos e pinheiros costumam simbolizar qualidades nobres, no mais das vezes, ligadas a aspirações ou ideais dos pintores.

Entre as escolas, destacam-se os pintores literati (ou da Escola do Sul), surgidos por volta de 1100. Eram letrados que se diferenciavam dos pintores profissionais e da corte (ou da Escola do Norte), estes voltados para o mercado ou para os clientes aristocratas.

Os literati prezavam a liberdade criativa e valorizavam o fato de pintarem para seu próprio deleite. Não buscavam a semelhança das formas, mas captar, com um toque pessoal, o espírito do objeto retratado.

Geralmente versados em poesia e caligrafia, tanto quanto em pintura, os literati concebiam uma íntima relação entre essas formas de expressão, a ponto de chamarem suas pinturas de “poemas silenciosos”.

Muitos pintores literati, mas também aqueles que adquiriam seus trabalhos, imprimiam na obra seus próprios selos em vez assinarem a autoria ou colocarem qualquer outra marca de posse. O carimbo para impressão era feito de pedra, marfim ou cristal, no qual se esculpia, em relevo, o nome, o pseudônimo do artista, uma pequena máxima ou um epigrama, que estampava a obra com tinta vermelha.

Gongbi

Técnicas na pintura chinesa

工笔 Gongbi

realista e precisa nos detalhes.

白描 Baimiao

a arte da linha; privilegia o contorno em tinta preta.

没骨 Mogu

semelhante à gongbi, mas sem desenho de contornos.

写意 Xieyi

Xieyi

estilo livre, subjetivista, mistura poesia, pintura, caligrafia e artes do selo de autoria ou propriedade.

水墨 Shuimo

realizada apenas com tinta preta, em várias diluições.

Oriente versus Ocidente

Suporte: a pintura chinesa tradicional utiliza bastante o papel de arroz, muito fino, absorvente e que exige maior concentração do artista para evitar erros; dada sua fragilidade, as pinturas nesse material são colocadas em suportes específicos, que constituem verdadeiras obras de arte em si e até na maneira como são penduradas ou expostas. A pintura ocidental trabalha mais com o tecido e costuma usar molduras para proteger ou realçar a obra.

Formato da ponta do pincel: a arte chinesa utiliza, em geral, pincéis com ponta em formato de gota, com dois tipos de fibras, as rígidas – feitas com pelo de doninha ou de lebre –, adequadas para desenhar linhas, e as macias – confeccionadas com pelo de cabra –, boas para sombreamento. No Ocidente, vários tipos de pontas são utilizados.

Tinta: para pintura chinesa e caligrafia, a tinta mais usada é em bastão, feito com base no carvão do pinheiro, desgastado em um tinteiro de pedra. Também há tintas coloridas extraídas de minerais e plantas. No Ocidente, são comuns a tinta a óleo, a tinta acrílica, o guache e a aquarela.

Técnica: a pintura tradicional chinesa deixa mais espaços sem preenchimento, estabelecendo um contraste entre a área da tela ou do papel pintada pelo artista e o espaço a ser preenchido pela imaginação do observador; esse vazio também simboliza o infinito ou um contraponto entre yin e yang. A pintura ocidental tende a preencher mais os espaços da tela.

Ponto de vista: as pinturas chinesas dão mais ênfase a aspectos da expressão, ao plano geral e aos materiais e instrumentos de execução, o que determina também uma maneira diferente de fruição e apreciação. Já as pinturas do Ocidente se aproximam mais de assuntos emoldurados, como se fossem cenas reais observadas através de uma janela.

Vintage moderno

Galeria no Distrito 798 em Pequim

No século 20, pressões para a modernização do país levaram à maior aceitação do estilo ocidental e pintores que foram estudar no exterior introduziram gêneros, cores e técnicas, embora as artes decorativas tenham continuado a seguir a tradição. Nos anos 1980, após a morte de Mao Zedong e o fim da Revolução Cultural , a arte moderna chinesa começou a apresentar marcas de um individualismo crítico.

O Pop Político (que mistura elementos da sociedade chinesa com imagens da cultura popular ocidental) e o Realismo Cético (busca pela expressão pessoal, quebrando a estética coletivista da Revolução Cultural) dos anos 1990 são exemplos disso. A diferença fundamental no destino de ambos é que o primeiro dependia muito do Ocidente, já o último procurou representar sua própria cultura e tradição.

Assim, a China dos anos 1990 e 2000 se informa sobre o mundo em tempo real, imersa na era das redes sociais, do ritmo frenético e do consumo. Produz uma geração de artistas que levanta questões específicas desse período histórico e de suas ansiedades quanto ao futuro, além de procurar a construção de outros parâmetros para uma identidade nacional.

Algoritmos de Ding Yi

Nos anos 1990, uma nova linguagem “não artística”, situada entre as letras, a matemática e a pesquisa linguística, transcendeu aspectos ideológicos. Representante desse estilo, Ding Yi, natural de Xangai, compõe um código visual de símbolos “+” e “x” em complexas matrizes coloridas.

Sua inspiração evidente são os códigos binários, o universo digital e os padrões aleatórios ordenados como algoritmos, que, como imagens, remetem ao caos da metrópole moderna, cuja (ir)racionalidade confronta os limites da abstração.

Ding Yi, “Shi-shi 2009-6”, acrílica sobre lã

O cotidiano político de Wang Yin

Muito cedo, Wang Yin aprendeu a pintar no estilo realista da escola soviética. Integrando uma dramaticidade às cenas, ele passou a retratar desde o universo do trabalho até o das relações interpessoais. Wang abre mão dos detalhes para proporcionar uma experiência visual impactante ao espectador, com base em cenários cotidianos chineses.

Wang Yin, “Noroeste”, óleo sobre tela

Memória e futuro em Xu Lei

As composições oníricas de Xu Lei são elaboradas em tinta sobre seda, como referência ao estilo gongbi da pintura tradicional chinesa. Nesses mundos imaginários, rochas submersas e montanhas flutuantes, em tons suaves de azul, compõem imagens contemporâneas surreais.

Xu Lei, “Qi e osso”, tinta sobre seda

De malas prontas: Yin Xiuzhen

Yin Xiuzhen, que esteve na 26ª Bienal de São Paulo, em 2004, faz uma crítica à modernização excessiva e ao crescimento econômico desenfreado, que alteraram não só as características de sua cidade natal, mas também as de toda a China contemporânea. Ela usa malas de viagem para transportar um paradoxo: “miniaturas de metrópoles”. Essas pequenas grandes cidades portáteis são feitas com roupas usadas que pertenceram a ela e aos habitantes das cidades visitadas.

Esse material é um documento de realismo sintetizado. Para Yin, as roupas oferecem abrigo e proteção, são como casas portáteis ou, em seu conjunto, pequenas cidades; mas também uma segunda pele, no sentido de um órgão que faz a conexão entre nosso mundo interior e o exterior.

Carregando suas experiências, memórias e marcas do tempo, as roupas usadas em seu trabalho também remetem à descartabilidade da moda, que está sempre mudando e estimulando o consumo, de forma compulsiva, sobretudo em sociedades de industrialização e urbanização aceleradas.

Yin Xiuzhen, “Cidades portáteis”