Por Vinicius Tamamoto

Comecei a desbravar o tai chi chuan há quase um ano. O que eu sabia antes sobre a milenar arte marcial chinesa consistia basicamente em assistir a idosos se movendo muito lentamente em parques e praças públicas da China. Lembro-me de ver e rever a cena pela televisão de tempos em tempos naquele longevo programa de sexta a noite desde a infância. O viés era sempre o mesmo: “olhem só como essa ginástica deixa os velhinhos sorridentes e um pouco mais longe da morte”. A propaganda vingou: para a maioria das pessoas, o tai chi anda lado a lado com a velhice. Aos 29, já recebi cara de espanto ao dizer que tenho praticado. “Tão novo?” Sim, é verdade que na China a arte é muito popular entre os mais velhos, mas confie em mim: as benesses dos movimentos ancestrais são o antídoto perfeito para aliviar as inquietudes causadas pela velocidade do nosso tempo.

Não está sendo fácil

A jornada é longa e dolorosa, confesso. Nas primeiras aulas, enquanto os veteranos faziam as sequências de movimentos, tudo o que fiz foi ficar em pé com as mãos na altura do peito como se estivesse segurando uma bola. É um exercício de 气功  qìgōng (ou chi kung), que busca estimular e fortalecer a chamada energia interna, e que serve de base para as formas. “Alinhe a cabeça, mantenha a espinha ereta e imagine um triângulo ligando o umbigo aos pés”, ensinou minha professora. “E fique”. Não é exatamente prazeroso manter o corpo nessa posição. A mente vagueia, a coluna reclama, os braços cedem e os joelhos amolecem, mas o qigong é a essência da prática: sem o trabalho interno, o tai chi vira uma simples ginástica. Com o tempo, as posições vão variando e as dificuldades aumentando. É surpreendentemente contraditório que movimentos quase imperceptíveis possam ser tão desafiadores.

Depois de meses de prática, só recentemente comecei a sentir meu corpo como árvore. A cabeça é a copa, os braços são os galhos e os pés, a raiz fincada no chão. Nesse momento, o objetivo é alcançar uma movimentação espontânea, quando o que chamamos de energia se rebela dentro do corpo e pode ser deslocada através dos membros e tronco durante as sequências de movimentos. Atingir o estágio de torpor é das tarefas mais árduas. Para minha professora, levou dois anos. Eu ainda me sinto bem longe do feito. “Nós estamos condicionados a comandar o movimento”, ela explica. “Se vamos cair, o corpo todo se liga para se proteger. Alguém muito furioso em uma briga também se torna muito mais forte. Isso acontece inconscientemente, mas por meio do qigong a gente aprende a usar a energia de forma consciente.” É daí que nasce a força dos esguios lutadores de artes marciais.

Poesia muda

A finalidade do tai chi hoje, no entanto, não é a luta. As sequências de movimentos, chamadas de “formas”, são simulações de golpes, mas aprender a mover a energia interna é o que realmente importa. O objetivo é um tanto abstrato para a cultura ocidental. Na prática, o que se faz é fortalecer os mecanismos que ajudam o corpo a funcionar bem. Usa-se uma força de expansão para exercitar, por exemplo, tendões, articulações e ligamentos. Há inúmeras evidências científicas dos benefícios da atividade. Em 2013, um artigo publicado no European Journal of Preventive Cardiology indicou que o tai chi melhorou a resistência arterial de mulheres idosas, o que é essencial para a saúde do coração.

Para além da atividade física, o tai chi é também poesia em movimento. O despertar do dragão, o macaco que oferece a fruta e o alisar da cauda do pássaro são algumas das cenas que o corpo reproduz. Enquanto sigo a sequência vagarosamente, sou seduzido por seres fantásticos que habitam um universo mitológico bem longe do centro da metrópole. A mente desliga do mundo de preocupações ao mesmo tempo em que se mantém presente na morosidade dos gestos.

A pureza da pose faz contraposição ao caos. Aqui não há o dinamismo das academias, nem a explosão de uma aula de zumba. Tampouco a força física e a elasticidade plástica exigidas pelo yoga. Durante o período em que estudei, vi muitos interessados procurarem a prática, mas apenas um conseguiu passar da terceira aula. Os cerca de dez colegas de turma que já praticavam antes de mim seguem a jornada individual pacientemente. É aí que está a revelação do tai chi. A persistência na inércia vai contra o imediatismo do nosso tempo, uma barreira e tanto a ser vencida. Em um devaneio, fiquei pensando se o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925–2017) não gostaria de ter experimentado uma aula de tai chi (se é que não o fez). No conceito de modernidade líquida, cunhado por ele, a metáfora do estado físico da água serve para ilustrar a contemporaneidade: fluida, escorregadia e incapaz de manter a forma por muito tempo. Essa fragilidade se reflete, por exemplo, nas relações sociais. Não sabemos esperar, vivemos ávidos por resultados e estamos cada vez mais ansiosos pelo que virá. A filosofia contida no tai chi ensina exatamente o oposto. Na arte, é preciso vencer o movimento por meio da quietude, a dureza por meio da suavidade e a rapidez por meio da lentidão, num intenso exercício de presença e constância. “Vivemos tempos líquidos, nada é para durar”, refletiu o acadêmico. O meu remédio, caro Bauman, tem sido o tai chi.

Oposição complementar

A primeira referência escrita do termo tai chi apareceu há mais de três mil anos no Livro das Mutações. Os princípios da arte são baseados na antiga filosofia chinesa do taoismo, que enfatiza o equilíbrio natural e a necessidade de viver em harmonia espiritual e física com os padrões da natureza. Segundo o pensamento taoista, todas as coisas são compostas de dois elementos opostos e complementares: o yin e yang, que agem de forma a garantir o perpétuo equilíbrio entre tudo. É assim na natureza, que tende a um estado natural de harmonia. Padrões relacionados à suavidade estão associados ao yin, enquanto a força e a rigidez, ao yang. O que (ou quem) está em harmonia tem paz e longevidade.

O berço do tai chi

Os relatos românticos do nascimento do tai chi dão conta de que tenha surgido no século 15, com a figura do monge taoista Zhang Shanfeng. Acreditava-se que ele fosse uma espécie de super-herói, por causa de sua força, e que teria criado a prática ao observar a luta entre uma águia e uma serpente. Historicamente, a versão mais aceita é de que o tai chi tenha surgido por volta do século 17 em Wenxian, na província de Henan. Chen Wangting, um guarda real aposentado, teria sido atraído pelos ensinamentos taoistas. Mudou-se para Chenjiagou, local onde nasceu, para levar uma vida simples. Ali, praticou, desenvolveu e ensinou a arte marcial. Desde então, a cidade virou um lugar de peregrinação para praticantes de tai chi do mundo inteiro.

Cinco estilos, um propósito

O tai chi se divide em cinco estilos diferentes e o aprendiz pode escolher qual mais se encaixa ao seu gosto. Apesar de todos terem o mesmo objetivo, as formas e a maneira de executar os movimentos variam. Assim como a minha, alguns professores podem mesclar as variações. Se eu fosse aconselhar um amigo que está procurando seu caminho na arte, diria para procurar um mestre que leve o qigong a sério e que não o faça apenas repetir sequências – uma aula de dança daria conta disso, afinal. Pitaco dado, conheça abaixo os estilos.

陈氏 Chen

O estilo mais antigo é caracterizado por mesclar movimentos lentos com explosões, que incluem saltos, chutes e golpes.

杨氏 Yang

Por ser composta de movimentos lentos e fluidos, a versão não é tão difícil de ser executada e por isso é a mais praticada no mundo.

吴氏 Wu

O estilo dá ênfase à extensão do corpo, que se inclina para frente e para trás em vez de permanecer centrado como acontece nas demais versões.

孙氏 Sun

Combinando outros estilos de artes marciais, a variação enfatiza a agilidade e a auto-defesa.

郝氏 Hao

O estilo se caracteriza pelos movimentos lentos, com ênfase no equilíbrio e no trabalho da energia interna.