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por Xun Wei

 

Guo Xiaoran trabalha com recursos humanos numa empresa de comércio exterior no centro de Pequim. Na manhã de segunda-feira, sai de seu apartamento na zona leste da cidade, escaneia com o celular o código QR para destravar uma bicicleta compartilhada – que usará para chegar à estação de metrô mais próxima – e passa pela catraca simplesmente encostando seu telefone no sensor. Ela sempre toma café numa lanchonete perto da saída da estação, e o pagamento é feito também escaneando um código colado na parede. Simples assim. O dinheiro chega à conta do dono no mesmo segundo. Depois disso, Guo caminha até o escritório e, assim, começa sua jornada.

Às 11h, pede comida por um aplicativo que oferece mais de mil opções de restaurantes na cidade inteira. Faz o pedido com certa antecedência para ter a certeza de receber a entrega no seu horário de almoço. Segundo o mais recente relatório da Meituan, líder do mercado, encomendar comida pelo celular já é uma das maneiras mais comuns de fazer as refeições nas cidades chinesas, quase empatando com as antigas práticas de cozinhar em casa e ir a restaurantes.

Depois do trabalho, Guo se reúne com alguns amigos num restaurante e racha a conta pelo WeChat, o mega-aplicativo mais popular na China que, de quebra, agrega as funções de WhatsApp, Facebook e Instagram. Entra na “carteira” do WeChat, escolhe “pagamento em grupo”, coloca o valor total do jantar e o número de participantes e cada um paga a quantia calculada automaticamente pelo sistema.

Chegando em casa, Guo abre mais um aplicativo. Desta vez o da JD, um dos sites de comércio eletrônico mais usados da China, para dar aquela olhada de costume. Decide comprar um best-seller, a tradução em mandarim de Princípios, de Ray Dalio, e um creme facial de uma famosa marca americana. Graças ao eficiente sistema de armazenamento e logística, os produtos devem chegar às suas mãos no dia seguinte.

Mudança de hábito

Nas cidades chinesas onde o pagamento eletrônico é mais desenvolvido, já é uma realidade passar dias sem usar dinheiro vivo e dependendo apenas de um smartphone. De reservar passagens aéreas e hotéis a comprar no mercado ou em grandes shoppings – ou até fazer doações a templos religiosos e organizações beneficentes –, tudo pode ser feito por um dispositivo móvel. É essa a realidade em quase todos os cenários que você pode imaginar. Não é mais necessário andar com a carteira no bolso, ter dinheiro trocado, nem se preocupar em receber notas falsas; basta escanear um código QR que o processo de pagamento é concluído em segundos.

Dados demonstram que 84% dos chineses se sentem “tranquilos” ao sair de casa sem dinheiro nenhum, apenas com seu celular; 40% das pessoas levam menos de 100 yuan (uns 14 dólares americanos) no bolso; 52% dos entrevistados afirmaram que somente 20% de seus gastos mensais foram pagos em dinheiro vivo e mais de 70% dos pesquisados admitem que só usam notas e moedas quando não há outros meios de pagamento – 100 yuan em espécie podem durar uma semana na carteira. Essa é a nova situação retratada pelo Relatório de Vida Inteligente da China 2017 – divulgado pela Tencent, uma das gigantes de internet no país e dona do aplicativo WeChat.

Hoje, mais de 60% das transações em lojas físicas são feitas por dispositivo móvel, o que corresponde a quase 500 milhões de usuários chineses. O pagamento eletrônico se tornou tão popular que o Banco Central da China até publicou uma portaria proibindo a rejeição do dinheiro em espécie, seja por que motivo for.

Um deserto de internet

Graças ao rápido desenvolvimento da infraestrutura de telecomunicações e da indústria virtual, em apenas 19 anos a China – antes um deserto de internet – evoluiu para uma sociedade de pagamento eletrônico.

Em 1999, foi organizado em Pequim, Xangai e Cantão – as três cidades mais desenvolvidas do país naquela altura – o “Concurso de Sobrevivência pela Internet”. Doze participantes, selecionados entre mais de 5 mil candidatos, precisavam passar 72 horas isolados em quartos de hotel. Eles tinham de se virar com recursos limitados oferecidos pela organização: uma quantia em dinheiro e numa conta digital, e um computador com acesso discado à internet.

Naquela época, a velocidade de conexão na China era 5 mil vezes mais lenta que a de hoje, e quase não havia sites para fazer compras ou pedir comida. Dos 5 milhões de chineses com acesso à rede mundial de computadores, muitos sequer sabiam o que era um e-mail.

A imprensa chamou os participantes de “Robinsons Crusoé da internet”. Com razão, ou você acha que não lutaram pela sobrevivência como se estivessem numa ilha desabitada? O concurso aconteceu no início do inverno e houve quem se enrolasse em lençóis por não conseguir comprar cobertores. Alguns até tiveram sucesso em pedir comida por um site, mas, por falta de opções, o cardápio foi o mesmo por três dias seguidos. Outros, sem a mínima noção de comércio on-line, ficavam lutando com a discagem. Em Cantão, um universitário de 18 anos e sem nenhuma experiência prévia com a rede mundial, dormiu apenas 2 das quase 26 horas que durou a sua participação no concurso. Passou a maior parte do tempo tentando se entender com o sistema Windows 95 e teve de desistir por causa do frio e da fome.

Hoje em dia, dá para comprar tudo que você puder imaginar em termos de mercadorias nacionais e importadas com um clique. Usando o celular e o pagamento eletrônico, você pode passar quanto tempo quiser sem sair de casa, mas com acesso a uma infinidade de produtos e serviços – como comidas, roupas, itens de uso diário, medicamentos e até mesmo cabeleireiro, faxina e massagens.

Não é só para pagar as contas

Além das ocasiões normais, foram criadas maneiras inovadoras para aproveitar melhor o pagamento eletrônico. Uma das maiores e mais bem-sucedidas invenções é o envelope vermelho virtual.

O envelope vermelho é um presente tradicional na China, sobretudo durante o Ano-Novo Chinês. A cor simboliza fortuna e sorte e espanta os maus espíritos, e entregar uma quantia num envelope fechado demonstra modéstia, sem ostentar nem incentivar a comparação com os outros. Na virada do ano, pacotinhos com notas novinhas em folha chegam às mãos das crianças e dos jovens da família, acompanhadas das bênçãos e dos melhores votos dos pais e avós para o ano que se inicia. Amigos e colegas de trabalho também podem trocar envelopes vermelhos como um gesto de felicitação, celebração, agradecimento e motivação.

Na véspera do Ano-Novo Chinês de 2014, o Alipay e o WeChat replicaram essa tradição no mundo virtual. Desde então, mandar envelope vermelho eletrônico tornou-se um ato social mais importante na vida dos chineses, e qualquer coisa pode virar motivo para provocar uma chuva de “moedas” nas janelinhas de chat: festividades, casamentos, boas notas nos exames escolares ou no vestibular, promoção na carreira etc. Até alguém recém-incluído no grupo distribui uma quantia como forma de cumprimentar a todos os que já estavam na conversa. São pequenos valores, mas em grandes quantidades.

Você pode enviar o envelopinho a determinada pessoa na sua agenda de contatos ou a várias pessoas num grupo de conversa. Neste caso, o valor é dividido entre os primeiros a clicar para abrir o envelope. Com isso surgiu um “esporte” popular na China: a caçada aos envelopes vermelhos. É uma atividade que exige bons reflexos e ótima coordenação entre os olhos e os dedos, além de um aparelho bem equipado com boa velocidade de conexão. Muitos concorrem não pelo valor monetário em si, mas pela vontade de ser o mais rápido, como é o objetivo em diversas competições.

Quando o barulho dos fogos de artifício anuncia a chegada do novo ano, prolifera-se também a troca de envelopes vermelhos nas redes sociais. Reunir a família para assistir ao 春晚 Chūnwǎn – a festa televisiva da virada do ano da TV Central da China – e trocar envelopes pelo celular são duas das principais celebrações do dia, com centenas de milhões de participantes. No réveillon chinês de 2014, quando a modinha foi criada, 16 milhões de envelopinhos vermelhos foram enviados virtualmente pelo aplicativo; no ano passado esse número já havia saltado para 14,2 bilhões.

Gigantes do pagamento eletrônico

O Alipay e o WeChat Wallet são as duas ferramentas de pagamento móvel mais usadas pelos chineses. Juntos, já respondem por mais de 90% do mercado. O primeiro é produto do Grupo Alibaba, que desenvolveu o próprio meio de pagamento valendo-se de plataformas pioneiras de e-commerce como o Taobao. Cresceu exponencialmente e hoje possui mais de 500 milhões de usuários na China. Já o segundo ganhou popularidade porque seu dono, o Grupo Tencent, possui o aplicativo de comunicação mais poderoso do país, com quase um bilhão de usuários – ou seja, é raro encontrar um chinês que não tenha uma conta no WeChat.

Não há grande mistério ao usar nenhuma das duas formas de pagamento. É possível fazer transferências em tempo real entre a carteira do aplicativo e diferentes contas bancárias atreladas, respeitando o limite de valores. E o mais interessante é que o dinheiro parado na carteira pode ser aplicado em alguns fundos de investimento que oferecem uma rentabilidade mais atrativa que a poupança. Por isso, muitos jovens costumam transferir logo o salário para essas contas virtuais, de modo a obter maior comodidade e lucro.

Acompanhando o crescimento de turistas chineses no mundo, o Alipay e o WeChat Wallet também fizeram sua expansão internacional. Até o momento, o primeiro está presente em mais de 200 mil estabelecimentos em mais de 30 países, enquanto o concorrente já é aceito em mais de 130 mil lojas em uma dúzia de países.

As lojas de duty-free na ilha coreana de Jeju foram as primeiras a providenciar acesso ao Alipay e ao WeChat Wallet, exatamente por causa do grande fluxo de turistas oriundos da China. A marca Galeries Lafayette anunciou a adesão aos dois aplicativos nas suas lojas na França. Já na galeria Vittorio Emanuele II, em Milão, lojas de grife estão anunciando a novidade para atrair a clientela chinesa. Inúmeros shoppings, restaurantes e lojas de conveniência também fazem a mesma coisa no Japão e na Tailândia, dois dos destinos mais populares para os chineses.

Com certeza, oferecer a opção de pagamento via celular aos que já estão (mal-)acostumados a andar por aí sem levar dinheiro vivo nem cartão de crédito ou débito faz uma enorme diferença para alavancar as vendas.

 “Black Friday” à chinesa

Na China, o dia 11 de novembro é conhecido como Dia dos Solteiros, em referência à abreviação da data, 11.11, e seus quatro solitários algarismos. A moda foi inventada por jovens chineses para dar uma corzinha à vida dos sem-namorado(a) e sem-marido (ou sem-mulher). E a data, que tinha tudo para ser um tanto melancólica e outro tanto irônica, acabou se tornando o maior festival de compras da China, quebrando uma série de recordes mundiais.

Tudo começou com uma campanha feita pelo Tmall, marca do Grupo Alibaba, em 2009 – justamente num 11 de novembro. “Quer se sentir melhor? Vá às compras!” foi o lema criado para o evento, que atingiu um sucesso inesperado. Desde então, a data foi escolhida para o lançamento de grandes promoções nas lojas virtuais do conglomerado, e muitas outras plataformas de e-commerce também aderiram, de olho nas enormes perspectivas de lucro. A moda acabou pegando também nas lojas físicas. É um superfestival para os consumistas, comparável à “Black Friday” dos Estados Unidos.

Em 2018, o faturamento do dia bateu novos recordes: em 21 segundos, as vendas do Tmall bateram um bilhão de yuan (144 milhões de dólares americanos); em 2 minutos e 5 segundos, o valor aumentou 10 vezes, e o volume total do dia atingiu 213,5 bilhões de yuan (30,77 bilhões de dólares). Só para se ter uma ideia, o montante é mais que o dobro das vendas combinadas da “Black Friday” e da “Cyber Monday” nos EUA.

A prosperidade do Dia dos Solteiros é sustentada pelo crescente poder de compra dos consumidores chineses. Seus dados chamam a atenção dos analistas do mundo todo e tornaram-se um tipo de termômetro do mercado de consumo do país asiático. Cada vez mais clientes internacionais também aderem com entusiasmo às promoções, e os brasileiros estão entre os mais animados. O Aliexpress, versão internacional do Taobao, tem uma boa percepção no mercado brasileiro e faz campanhas bem atraentes no dia 11 de novembro.