Por Janaina Rossi Moreira

“Mas você não disse que os poemas dela eram sensuais?”, disse, frustrado, um leitor de Ricardo Portugal sobre Yu Xuanji, uma das mais famosas poetas da dinastia Tang, cuja obra – o que restou dela – foi traduzida na íntegra por Ricardo e sua esposa, Tan Xiao.

Foi o próprio tradutor quem me contou esse episódio, por ocasião da entrevista que o casal me concedeu a respeito da poesia clássica chinesa. O rapaz em questão, ávido por encontrar trechos “picantes” nas páginas do livro, deixou escapar a sexualidade sutil, mas muito presente, dessa mulher que foi executada ainda na casa dos 20 anos, mas cuja vivência e maturidade emocional e artística ficam patentes em cada poema.

Poema de Yu Xuanji

Quem quiser um aperitivo, basta conferir o poema que escolhemos para ilustrar esta matéria (veja quadro), acompanhado da tradução dos mesmos Tan Xiao e Ricardo Portugal. É claro que nossos olhos – pós-modernos, além de ocidentais – têm uma acuidade bem menor para enxergar toda a dimensão de cada uma das várias dimensões da obra da poetisa. Ela teve fama de libertina, e faz todo o sentido supormos que suas palavras tenham sido, para sua época e sociedade, bem mais explícitas. Não apenas no plano da sensualidade.

Também será impossível para nós entender o que as mulheres intelectuais precisaram enfrentar para exercer sua vocação. Temos alguns dados biográficos, conhecemos parte do contexto histórico e podemos acessar o pouco de sua produção que chegou até nós. Mas o dia a dia, com seus desafios constantes e nem sempre tão evidentes, sobre esse só podemos tecer elucubrações.

Entretanto, eu me surpreendi com a comparativamente muito maior “liberdade” que as antigas chinesas tiveram ao longo de dezenas de séculos. A época dos Tang foi a mais “liberal” – e não é coincidência que tenha sido também a mais profícua –, mas por todo o período da história da China houve participação feminina na vida artística e intelectual.

São 120 as autoras escolhidas para figurar na célebre antologia de poemas da dinastia Tang. Ok, isso é menos de 10% do total de poetas presentes na coleção. Mas tentemos citar meia dúzia de escritoras europeias reconhecidas – e populares – que tenham vivido entre os séculos VII e X, época em que os Tang imperavam em solo chinês. A antologia foi compilada apenas no século XVII, na dinastia Qing. Ou seja, nenhuma dessas criadoras está sendo “redescoberta” pela posteridade. Todas estavam já incorporadas à tradição.

Xue Tao retratada por Qiu Ying

Mulher para casar

Não que houvesse grandes incentivos para as mulheres estudarem. “Moça de família” recebia uma educação básica. Tanto é que cortesãs e concubinas estavam entre as mulheres mais cultas da sociedade chinesa. Afinal, os homens procuravam nelas “o que não tinham em casa”, ou seja: uma linda mulher com quem pudessem discutir poesia e filosofia de igual para igual… Brincadeiras à parte, é fato que as habilidades das amantes não titulares englobavam música, caligrafia, pintura e conhecimento literário.

E, assim como no Ocidente a vida sacerdotal atraiu por séculos gente disposta a atuar na intelectualidade, ser monja também era uma opção para as mulheres com aspirações intelectuais. O curioso, para nós, é a associação bastante frequente entre esses dois papéis – de cortesã e de religiosa. Yu Xuanji mesmo foi ambas as coisas. Talvez possamos dizer que o “topo” na carreira de uma jovem bonita e instruída fosse chegar a concubina (segunda esposa) de algum aristocrata. Algo para se pensar, não é?

Xue Tao foi mais longe. Ao cair nas graças do ilustre general Wei Gao, foi nomeada mestra de cerimônias, e nessa posição pôde conviver com a nata da intelectualidade de sua época. Foi uma figura muito querida e admirada, tanto que continuou a exercer a função mesmo após a morte de Wei. As pessoas plantaram bambu em todos os cantos de seu pátio, em homenagem póstuma à poetisa, e a área se transformou no Parque Wangjianglou, em Chendu, capital da província de Sichuan. Quer mais? Uma cratera em Vênus recebeu o nome de HsüehT’ao, o nome da artista na grafia antiga. Ela viveu bem mais tempo (63 anos) que Yu Xuanji e os poemas dela que chegaram até hoje são duas vezes a obra remanescente de sua conterrânea – ambas têm raízes em Chang’an, atual Xi’an e capital de mais de dez dinastias, inclusive a Tang.

Parque Wangjianglou, em Chengdu, criado em homenagem a Xue Tao.

E ela falava das rosas

O pai da multitalentosa Li Ye também percebeu que a filha não era “para casar”. Ao que consta, o senhor Li ficou maravilhado com a inteligência “excepcional” da menina que, aos seis anos, já escrevia poemas reveladores de sua verve. Mas ao perceber que se tratava de bem mais que brincadeira de criança, ficou receoso de que a filha se tornasse uma “mulher impura”. Felizmente para uns e infelizmente para outros, Li Ye seguiu a vocação de artista e poeta. E de monja e cortesã.

O motivo da preocupação paterna foram estes versos, traduzidos bem livremente aqui:

“Ao correr das estações, [elas] não dependem de treliças, nem recuam

Minha mente e emoções se agitam, em profusão, e em confusão”

O pai encontrou insinuações sexuais no dístico, ou ao menos indícios de uma paixão não casta. Mas o que a garota usava como metáfora nada mais eram que as rosas do jardim!

É de se supor que os minguados dados biográficos de que dispomos tenham sido alterados ao longo de tantos anos, intencionalmente ou não. Uma variante da história redime o pai da poetisa, dizendo que ele de fato achava que a garota não era “para casar”. Só que isso teria sido um orgulho para ele e razão para incentivar a filha, uma vez que suas aptidões especiais seriam “desperdiçadas” com um eventual matrimônio.

Sempre elas

A maior parte das intelectuais do “segundo sexo” de que temos notícia viveu e produziu durante a dinastia Tang. Afinal, foi esse o período áureo da literatura chinesa e da “liberalidade” em relação às mulheres. Mas, como eu disse no começo, elas sempre estiveram presentes na vida cultural do país. Na dinastia Han Ocidental (206 a.C. – 23 d.C.), temos, por exemplo, a Consorte Ban, ou Ban Jieyu (婕妤, jié yú, era a palavra para “concubina imperial”…), poeta, escritora e mulher de grande erudição. No período das Dinastias do Norte e do Sul (420 – 589), podemos citar Bao Linghui, irmã de Bao Zhao e poeta como ele. Durante as Cinco Dinastias (século X) viveu Madame Harui, ou Consorte Xu. E a lista continua, com nomes como Su Hui (Seis Dinastias), Zheng Yunduan (dinastia Yuan), Liu Rushi (período Ming tardio), Wu Zao e Liang Desheng (dinastia Qing) e tantas outras que não cabem nestas páginas. Nem nos limites (não apenas cronológicos) de suas épocas.