Por Janaina Rossi Moreira

O nome desta matéria evoca Amor à Flor da Pele, título brasileiro do premiado “花样年华” longa-metragem de Wong Kar-Wai conhecido internacionalmente como In the Mood for Love. Lançado no ano 2000, o filme é uma ótima pedida não só para amantes da sétima arte, como também para os amantes da moda, pois durante uma hora e meia a esplendorosa atriz honconguesa Maggie Cheung desfila uma coleção de igualmente esplendorosos qipao.

Nomes próprios

Qipao, também conhecido no Ocidente como cheongsam, é aquele típico vestido chinês, perfeitamente ajustado ao corpo, de gola redonda circundando a base do pescoço, botões na transversal à altura do colo e fenda dos lados. E o nosso assunto aqui.

旗袍 qípáo é a designação da vestimenta em mandarim, já cheongsam [tchón-sám] vem do cantonêse foi o termo que passou para a língua inglesa. Devidamente dicionarizado, difundiu-se mundo afora. É por isso que a maioria dos ocidentais se refere ao traje como cheongsam, embora contrariando o chinês padrão e vários dialetos.

Eileen Chang também era adepta do traje – assim como suas personagens. Aparece, altiva, envergando um qipao em seu retrato mais famoso, o mesmo que ilustra seu verbete na Wikipédia. A própria escritora chegou a desenhar modelos, e uma criação sua foi encontrada entre seus pertences após a sua morte. Eileen, um dos nomes mais influentes da literatura chinesa contemporânea, chegou mesmo a dedicar um poema a seu amado cheongsam.

Sem subterfúgio

Mas tanta devoção a uma simples roupa? Bem, para além da complexa relação de amor (e, por vezes, de ódio) das mulheres com a moda, o vestido é uma celebração do que há de mais feminino, externa e internamente falando. Já disseram que usar o qipao pode mudar a personalidade (ou revelar suas camadas profundas e nuances insuspeitas). Ao colocá-lo sobre a pele, a postura corporal se modifica de maneira imediata e quase que instintiva, e daí a atitude, a percepção de si mesma. A sensação é de que se está vestindo uma joia, uma obra de arte, ou ambas. Qualquer acessório corre enorme risco de ser supérfluo. O complemento soberano do vestido é o rosto, as formas, o movimento de quem o usa. Sem intermediação, distração, subterfúgio. O ideal, inclusive, é que seja feito sob medida para a usuária, pessoal e intransferível.

Apesar de revelador, por acompanhar e evidenciar as formas corporais, a peça é extremamente versátil e democrática. Com pequenas variações no feitio, material ou detalhes, ela pode se adaptar a todas as idades, compleições, culturas, ocasiões e mesmo situações climáticas. Tais características estão no, digamos, DNA do qipao, devidamente aperfeiçoado pelo próprio tempo e por influências da moda ocidental. Falando em Ocidente, há tempos aportou por aqui. Vira e mexe vemos alguma moça usando um modelo daqueles acetinados, à altura do joelho, geralmente em um casamento ou ocasião mais formal. E é muito provável que a leitora já tenha possuído também uma daquelas blusinhas inspiradas no modelo, e que estiveram em alta bem no início deste século. Eu tive. Era vermelha.

Ou seja, o qipao provoca em quem o veste uma atitude que, no jargão mais recente do teatro, dir-se-ia “extracotidiana”. A roupa em si é extracotidiana, mas não patina em excentricidades vazias nem no exotismo raso. A sobriedade e a simplicidade do desenho entram em harmonia com a riqueza dos detalhes, cores vibrantes e estampas nada discretas, resultando num visual totalmente equilibrado. Se por um lado a silhueta fica evidente, por outro a coluna ereta, os passos mais curtos e suaves que inspira e mesmo o colo resguardado são uma blindagem contra a vulgaridade. Sem falar que toda essa beleza é apenas o último estágio de um longuíssimo processo de desenvolvimento, permeado de importantes acontecimentos históricos, conquistas sociais e, para usar novamente um vocabulário atualmente em voga, de empoderamento feminino.

Da “burca” à minissaia

Curioso que essa roupa que tanto valoriza as curvas tenha surgido exatamente para dissimulá-las. Há quem pense que a origem do qipao/cheongsam esteja na Xangai das primeiras décadas do século passado. Mas estamos falando de China, onde qualquer coisa minimamente tradicional tem pelo menos alguns (vários) séculos de idade. No caso da emblemática vestimenta, existem basicamente três teorias sobre sua origem. A mais difundida é aquela segundo a qual foram os manchus – fundadores da dinastia Qing (1644-1911) – os responsáveis por sua introdução. A palavra qípáo significa, literalmente, “túnica-bandeira”, e refere-se ao formato original da roupa, reta e composta de uma só peça. E os manchus usavam o 旗装 qízhuāng, um vestido-bandeira unissex. A onipresença de “bandeira” (旗 ) nesses nomes todos também remete às oito divisões administrativas da nobreza manchu, cada qual representada por seu próprio pendão. Assim, a casta dominante dos Qing, formada majoritariamente por integrantes dessa etnia, era conhecida como 旗人 qírén, a “gente das bandeiras”, o “povo-bandeira”. No final da dinastia, a palavra havia se tornado sinônimo de manchu.

Uma segunda hipótese defende que, apesar de haver incorporado elementos do vestuário manchu, o qipao surgiu uns dois mil anos antes, entre a dinastia Zhou Ocidental (1046-771 a.C.) e o período imediatamente anterior à dinastia Qin, iniciada em 221 a.C.. A terceira teoria diz que, na verdade, a roupa é fruto da combinação de estilos do Oriente e do Ocidente já na época da República, o que de certo modo endossa a versão de que Xangai seja o seu berço.

Todas essas suposições são debatidas nos meios acadêmicos e constam em títulos da bibliografia especializada. É bem improvável, porém, que algum martelo seja batido em favor de um ou outro argumento. Fato inconteste é que a evolução do qipao/cheongsam segue paralela à recente história da China, e está muito bem documentada em pinturas e fotografias.

Se considerarmos os vestidos e túnicas-bandeira “genderless” do século XVII como legítimos ancestrais do modelo que conhecemos e cobiçamos, os primeiros qipao tinham linhas retas e corte quadrado. Eram fechados e compridos, chegando até os tornozelos e ocultando o corpo quase por completo. Guardadas as proporções, pareciam burcas à moda chinesa, mas sem a cobertura para cabelos e rosto. Só trezentos anos depois, bem no início do século passado, é que a roupa foi repaginada e alçada à condição de traje tradicional da China. Ganhou um corte mais ajustado e passou a ser pensada para atender aos diferentes gostos e silhuetas. E assim adentrou os anos dourados e cosmopolitas de Xangai.

A década de 1930 confirmou a vocação do traje para agradar a gregas e troianas. Ele conquistou as jovens do país inteiro, inúmeras celebridades e se tornou a roupa favorita das mulheres do país, independente da idade ou estrato social. Foi aí que a influência do Ocidente se fez sentir mais forte que nunca. O comprimento diminuiu e, aliado ao caimento mais justo, foi fazendo da antiga peça-esconderijo algo bem mais insinuante. Na década seguinte, já se encontravam qipao nas mais variadas cores, estampas e tecidos – o vestido original era feito de seda pura. Ombreiras, fechos e cordões apareceram, e até na VOGUE o qipao marcou sua presença. Mas veio o colapso da economia xangainense, chegando a dobrar o preço das roupas. O traje passou a ser artigo de luxo. À época da fundação da República Popular da China, já no limiar dos anos 1950, a vestimenta estava sendo abandonada no país, mas as chinesas de outras partes da Ásia continuaram a usá-la. Em Hong Kong, para onde muitos alfaiates haviam migrado, o qipao atingiu enorme popularidade. E evoluiu ainda mais em termos de ocidentalização, variedade e ousadia. A década de 1960 testemunhou o miniqipao, equivalente asiático da minissaia que causou escândalo ainda maior que ela, além de severa reprovação.

Nos anos seguintes, a peça ficou algum tempo esquecida no fundo do baú, mas a notícia boa é que, recentemente, os chineses revitalizaram sua vestimenta tradicional. Hoje, é aquela “roupa especial para ocasiões especiais”. Favorita em casamentos e principalmente nas festividades de Ano-Novo.

Um clássico

É claro que os ditames do mercado, com suas estratégias mirabolantes e propósitos insondáveis, conseguem muitas vezes se impor e nos transformar em consumidores-zumbis atrás da peça da estação. Nem questionamos se ela na verdade nos é útil ou agradável. Só que peças assim, quando muito, vêm e vão, reestilizadas, redimidas. Outras caem no limbo das criações malfadadas para sempre. E há as modas que nem chegam a “pegar”. Mas o qipao, ou cheongsam, com seu design enxuto, mas profundamente feminino, pertence a outra categoria. É um patrimônio. Permanece, reinventando-se de maneira quase espontânea, refletindo uma identidade profunda – e sua evolução – para traduzi-la em forma de roupa. É aí que a moda deixa de ser efêmera, funcional, ou apenas fútil, e consegue transcender.

Elas não usam chángpáo

Segundo vários estudiosos do tema, esse fiel companheiro das chinesas também lhes serviu de “bandeira”: foi um símbolo da liberação feminina no período do advento da República, imediatamente após a queda dos Qing. Reivindicando o fim de desigualdade entre os sexos, de mecanismos de opressão (lembremos os terríveis “pés de lótus”…) e da relegação da mulher aos papéis tradicionais, elas resolveram adaptar para seu próprio uso o 长袍 chángpáo, que era uma túnica longa, até então exclusivamente para o uso masculino. As  roupas femininas desde a dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.) eram conjuntos de duas peças.

Com quantos pankou se faz um qipao 

Os materiais e detalhes contribuem para a personalidade única do qipao. A seda ainda é bastante utilizada, mas podemos encontrá-lo em algodão, cetim, tecidos sintéticos e até em tricô.

As cores e estampas (ou ausência destas) foram mudando e se diversificando ao longo do tempo. Até os tempos dos Qing, o amarelo era exclusivo da casa imperial, e o branco era uma das opções favoritas. Embora se possa encontrar hoje praticamente qualquer motivo, os desenhos mais típicos são figuras mitológicas, como o dragão e a fênix, animais, plantas e flores. Bordados e brocados surgem em diversos modelos, muitas vezes substituindo a estampa. O colarinho e o decote também existem em formas variadas, como “folha de lótus”, “pinguim”, “gota d’água”, “bambu”…

As cerejas do bolo são os graciosos e tão característicos 盘扣 pánkòu, os botões transversais feitos de nó chinês. Os formatos são os mais variados, indo do mais simples e comum deles (reto com uma esferazinha na ponta) até elaboradíssimas flores e motivos abstratos. Há um esplêndido site dedicado especialmente a eles, embora também traga inúmeras informações e ilustrações de qipao, acessórios, história etc.