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por Thiago Minami

 

Em 22 de maio de 2016, a fome de 雅莉 Ya Li diminuiu. Quatro dias depois, seu desejo por deliciosos pães de milho já não era mais o mesmo, enquanto a ansiedade começava a bater lá no alto. Os funcionários do Centro de Pesquisa e Reprodução do Panda Gigante de Chengdu perceberam que algo estava para acontecer. Só não sabiam o quê. Foi só quase um mês depois, no dia 19 de junho, que a confirmação se deu: Ya Li estava prestes a dar à luz. No dia seguinte, vieram ao mundo duas pandas gêmeas, parecidas a ratinhos rosados sem pelo, uma com 144 gramas e a outra com 113 gramas ‒ mais leves que uma cebola.

Até que essas coisinhas se transformem naqueles ursões, é preciso ultrapassar algumas etapas delicadas. Os bebês pandas são tão frágeis que não recebem nomes antes de completar cem dias de vida. Para entender, basta olhar para eles: a impressão é que podem explodir com qualquer aperto mínimo. No Centro de Pesquisa de Chengdu, passam os primeiros dias de vida em incubadoras, assim como os bebês humanos prematuros. Recebem o alimento direto na boca, em bisnaguinhas manipuladas pelas babás. A cada quatro horas, as enfermeiras os ajudam a defecar, para depois pesá-los e medir a temperatura corporal. Cada detalhe é anotado num diário.

Se a família estivesse na natureza, uma das duas filhas de Ya Li certamente morreria. A decisão de quem vai viver cabe à mãe, provavelmente ‒ acreditam os cientistas ‒ por não dar conta de amamentar gêmeos. O Centro de Pesquisa não pode se dar esse luxo. Todo esforço conta para que essas doces criaturas  continuem a existir. A espécie sofre risco de extinção há décadas ‒ ao todo, apenas cerca de 1800 animais vivem soltos na natureza, enquanto outros 300 são criados em cativeiro. Desses, 80% estão na província de Sichuan.

Nascimento celebrado

De tão noticiado pela mídia mundial, o nascimento das gêmeas de Ya Li deve ter deixado com inveja muita celebridade por aí. Se você sabe pouco sobre pandas, talvez ache isso um exagero. Mas um passo adiante no mundo deles já mostra que, além de estranhamente fofos, os pandas são animais peculiares de um jeito que faz duvidar se são mesmo deste planeta.

Para começar, eles são animais carnívoros que praticamente não comem carne. Em vez disso, se alimentam de brotos de bambu. Passam 14 horas todos os dias mastigando (o que seria o sonho de muita gente). O problema é que, como o sistema digestório deles é de carnívoros, a absorção dos nutrientes dos bambus não é tão eficiente quanto numa vaca ou num cavalo.  Por sorte, contam com micro-organismos que ajudam no processamento da celulose presente no bambu ‒ e daí tiram energia.

Não que precisem de tanta assim. Uma das razões para os pandas comerem bambu é a preguiça em concorrer com outros carnívoros pelas presas. Ao longo dos séculos, os ursões  em p&b perceberam que era mais negócio aprender a viver de bambu que disputar carne com um lobo ou uma espécie de urso mais agressiva. Deu certo. E a natureza até providenciou um osso proeminente nas patas da frente, que funciona quase como o dedo polegar humano. Por isso, eles conseguem segurar as coisas praticamente como nós, quando se sentam naquela posição em que ficam parecidos com gatos gigantes (aliás, “panda”, em chinês, escreve-se 熊猫 xióngmāo, literalmente um “urso-gato”).

E o que acontece quando o bambu acaba? O panda morre, por não se adaptar facilmente a mudanças ambientais. Mesmo em cativeiro, as coisas não são nada simples. A dificuldade em se reproduzir chega a ser motivo de piada. São como adolescentes tímidos e solitários, que não sabem muito bem como se aproximar uns dos outros para o acasalamento ‒ e nem as técnicas para copular (não deveria ser instintivo?). Além disso, as fêmeas só podem ficar grávidas uma vez a cada dois anos. O período fértil dura umas poucas semanas na primavera, dentre as quais elas podem ser fecundadas em apenas dois dias. Se nada acontece nesses dois dias, adeus.

Não há muita informação sobre como as coisas se passam na natureza. Ariscos e raros, os pandas dificilmente se deixam observar. A maior parte do que se sabe é com base nas pesquisas de centros como o de Chengdu, que hoje é o mais importante do mundo no assunto. Os pesquisadores do local mantêm contato constante com os de outros países para compartilhar as descobertas mais recentes. Também trabalham com outro ponto essencial à preservação dos pandas: a conscientização.

Um belo passeio

Todos os anos, cerca de 600 mil pessoas passam pelo Centro de Pesquisa e Reprodução do Panda Gigante. Lá os animais vivem numa área de 2,4 quilômetros quadrados (para se ter uma ideia, o Parque Ibirapuera, em São Paulo, tem 1,5 quilômetro quadrado). Restaurante, hospital, museu e cinema completam o passeio educativo. Com sorte, os visitantes podem assistir aos pandas brincando ou sendo alimentados. Antes, podiam ficar com um deles no colo após fazer uma doação, mas a atração foi proibida após alguns ursinhos morrerem de cinomose. O designer Douglas Silvério Maria, de São Paulo, teve a chance em 2009. “Era um bebê de 80 quilos, quente e muito macio. O cheiro dele era uma mistura de bambu com terra molhada. Olhou para mim logo que foi colocado no meu colo. Mas a tratadora não captou o momento e enfiou um pedaço de maçã na boca dele ‒ aí o interesse foi todo para a maçã. Quando ela tira o panda de você, dá uma frustração enorme, aquela sensação de ‘já acabou?’ Foi inesquecível!”, ele conta.

Talvez você se pergunte se não seria melhor soltar os pandas na natureza. Infelizmente, as tentativas costumam dar errado. Ao ser criados em cativeiro, eles perdem o medo dos humanos ‒ e podem ser mortos por caçadores ilegais e outras ameaças. Para resolver o problema, um pesquisador na reserva de Wolong, também em Sichuan, está tentando evitar o contato dos pandas jovens com os humanos e acostumá-los ao isolamento. Isso inclui pôr fantasia de panda nos funcionários na hora de pesar os filhotes, por exemplo, e restringir o acesso à mãe. Ainda é incerto se o método funciona. Enquanto o risco de extinção existe, centros como o de Chengdu se mantêm essenciais para assegurar a sobrevivência desses preguiçosos tesouros da China.

A Diplomacia do panda

Como modo de demonstrar amizade por outras nações, a China frequentemente empresta os pandas aos zoológicos do exterior. Países como Estados Unidos, Tailândia e Japão têm os seus. Em 2014, o Jardim Zoológico do Rio de Janeiro foi agraciado com a permissão para manter dois pandas por um certo período. Segundo a assessoria do local, ainda não há previsão para a chegada dos animais. O custo para manter um panda não é baixo e pode chegar a quase R$10 milhões por ano.

Ao voltar para casa, os pandas precisam passar por um período de readaptação. Em 2010, uma panda criada nos Estados Unidos retornou a Chengdu e estava sofrendo com a barreira da língua. Sem problemas: o Centro de Pesquisa recrutou um professor de chinês para a ursinha. De mandarim básico? Não, do dialeto de Sichuan, para que ela se sentisse bem acomodada na sua querida terra natal.