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Por Sérgio Maduro

Passeando por Pequim não é de todo difícil encontrar em parques pessoas usando um pincel gigante, com uma esponja ou pano na ponta, embebido em água limpa, para caprichosamente desenhar caracteres no chão.

Reunidos em ideogramas, imprimem no solo palavras soltas, poemas compostos, ou simples imagens – para os analfabetos em chinês. Ficam carimbados com água no pavimento, impressos por uma variação dos volteios e da pressão no pincel, ora mais encharcado, ora mais seco, compondo figuras de rara beleza.

O conjunto homem-pincel-obra-em-andamento é de uma poesia delicada e sutil, a imagem graciosa de uma pessoa pintando outra imagem, como se dançasse com o instrumento que usa para fazê-lo, deixando pegadas gráficas pelo caminho. As calçadas de concreto ficam provisoriamente “pichadas” (ou “pixadas”, como preferem algumas correntes do “pixo”) com esses escritos, efêmeros como um poema do padre José Anchieta nas areias da praia de Iperoig.

O carimbo de água no chão chama-se 地书 dìshū, literalmente, escrita no solo. Se os poemas de Anchieta persistiam na areia até que a maré os levasse, o dishu resiste até evaporar-se, fim nobre para um texto, numa cultura que incinera objetos quando deseja enviá-los aos mortos no culto aos finados.

O dishu vale-se do evidente poder visual do ideograma. Sua presença física em qualquer suporte – mais ainda no chão improvável de uma grande cidade – expressa toda a sua força delicada e emblemática e alude ao gestual do artista que o pinta.

Essa street art que exalta a inegável plasticidade expressiva e estética dos caracteres chineses é uma forma de caligrafia. O fato de ela ganhar as ruas na China é também reflexo de seu status de arte nobre, poucas vezes conferido à reprodução de um signo de comunicação.

A caligrafia é o culto estético da escrita. Palavra de origem grega, significa “bela escrita”. Os chineses deram-lhe o nome de 书法 shūfǎ (regras da escrita), e a exportaram para outros países, juntamente com os caracteres.

A caligrafia exalta a escrita e seus elementos. Se o ideograma é um desenho que busca capturar o universo, a caligrafia é um autêntico “desenho animado”, tanto no sentido de “movimento” ao escrever, como no de “provido de uma alma”, que é emprestada pelo artista ao pintá-lo em duas cores, o preto e o branco.

Repaginada a partir dos anos 1980, a nova caligrafia trouxe influências da arte abstrata ocidental, incorporando à escrita estilos da pintura para cultuar uma das mais antigas raízes chinesas. Era o aprofundamento de um diálogo, porque já era antigo o costume inverso: o Ocidente beber na tradição oriental.

Ao longo da história chinesa, os traços predominantes em cada período acabaram por forjar estilos caligráficos importantes. Graças a isso, um calígrafo pode fazer seu trabalho inspirado em algum dos vários estilos, que recuperam, por exemplo, o arcaísmo da escrita, ou uma fisionomia mais geométrica, ou a escrita cursiva, de visual quase taquigráfico.

Escrevendo a torto e a direito

Escrever em chinês não é uma tarefa fácil. Para traçar um ideograma é preciso paciência, precisão, disciplina. Segue-se uma sequência determinada: do alto para baixo, da esquerda para a direita, da parte mais externa para a parte mais interna e assim por diante. Além disso, oito traços básicos (e suas variantes) compõem as unidades mínimas do caractere, que devem ser dominadas por quem escreve. Apesar dessa metodologia rígida, cada caractere, pela sua própria origem pictórica de representação concreta de objetos, aproxima-se de uma pintura, porque tenta captar a essência e a beleza das coisas de uma maneira especial. É aí que entra a caligrafia.

Do ponto de vista plástico, escrever é sempre uma obra pessoal, mas a atividade caligráfica chinesa, por sua natureza, acaba por fazer do ato da escrita uma arte tão apreciada quanto a pintura. Como técnica artística, a caligrafia representa a captação de um momento, uma vez que o traço transforma-se num ato único, irrepetível, não passível de correção ou retoque. Em vez da caneta, um pincel pode marcar a diferença da caligrafia para a escrita normal.

As tensões, as hesitações, os movimentos e os ritmos acabam registrados, de modo que o bom calígrafo imprime suas características ao caractere e pratica sua arte como uma meditação, mantendo o foco e controlando a respiração.

A forma e harmonia do conjunto, a distância entre os caracteres, suas dimensões, a escolha e a proporção do suporte que eles preenchem, a maneira de segurar o pincel, de dar a pincelada, a textura, a cor e a quantidade de tinta utilizada, o estilo, enfim, tudo é um elemento definidor na arte da caligrafia.

A escrita passada a limpo

A escrita chinesa começou a se desenvolver entre 1500 e 2000 a.C. Considerada difícil de ser aprendida pelas crianças – e lembrada pelos adultos – ela vem sendo colocada em xeque pela aparente dificuldade em adaptar o mundo moderno a um sistema de expressão complexo e artesanal.

Entre os jovens do universo digital, já se percebe a dificuldade em memorizar um vocabulário mínimo de ideogramas, uma vez que os programas para computadores e celulares usam o 拼音  pīnyīn, o sistema romanizado de escrita usado pela China desde os anos 1950.

Mas nem todos vão por esse caminho. Em vez de fazerem dos ideogramas uma muralha para a comunicação, algumas pessoas, especialmente as que mais prezam as tradições e as atividades não virtuais, preferem reverenciá-los como forma de resistência cultural. O 国学 guóxué (estudo da cultura tradicional chinesa), incentivado por algumas instituições de ensino, inclui a revalorização dos ideogramas, inclusive de técnicas de escrita como a caligrafia. E as escolas em geral estão buscando incentivá-la a fim de integrá-la mais ao dia a dia das pessoas.

Atentas a esse movimento, modernamente, grandes marcas, desejosas de se fazerem presentes junto a tradicionalistas e vanguardistas, acabam dando uma forcinha para a cultura do ideograma, ao contratarem o trabalho de grandes artistas da caligrafia para divulgar seus produtos.

Sem dúvida, isso resulta em interessantes soluções de arte pop: imagine qualquer marca sólida do ocidente desconstruída e artisticamente reconstruída num ideograma caligrafado, sem perder a identidade. Isso rende uma interessante discussão sobre trocas culturais.

De todo modo, reescrever com esmero e requinte, como a caligrafia propõe, é também um ato simbólico de  refazer, com arte, o eterno rascunho da vida.

Pixo-dishu

Urbanista que estuda as intervenções gráficas em espaços urbanos, François Chastanet (1975) ocupou-se das pichações e do 地书 dìshū.

No livro Pixação: São Paulo Signature, ele faz um registro das transformações do que denomina “choque caligráfico”, promovido pelo “pixo”, uma evolução inusitada do alfabeto latino, que ganha nos muros e edifícios uma deformação estética expressiva.Movido pelo mesmo encanto gráfico, em Dishu: Ground Calligraphy in China, Chastanet faz um ensaio fotográfico sobre calígrafos anônimos praticando o dishu nas cidades de Pequim, Xangai e Shenyang.

Para conhecer mais sobre o olhar de François Chastanet e os anônimos calígrafos do dishu clique aqui.

Dishu Feet #3 from François Chastanet on Vimeo.

 

Sobre as relações do pixo com a caligrafia oriental:

Os 4 tesouros do calígrafo

纸 (zhǐ) papel

em rolo, leque ou folha, é invenção chinesa e suporte fundamental e de ótima qualidade para a escrita, devido ao poder de absorção e ao baixo custo

笔 (bǐ) pincel

haste de bambu com cerdas de pelo animal de variadas texturas (cabra, coelho, marta etc.)

墨 (mò) tinta

pigmento de cor preta extraído de madeiras e modelado em bastões com resinas e minerais como grafite, cinabre e carvão

砚 (yàn) tinteiro

suporte de pedra onde o bastão de tinta é diluído em água; o tipo de pedra e a porosidade e profundidade do material influenciam na obtenção de uma boa tinta