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Por Janaina Rossi Moreira

O homem, diz a máxima, é o animal que sabe menos do que queria e mais do que precisa. E o terror é, entre todos os gêneros, o mais capaz de abordar o que tememos justamente por desconhecer. Embrenhando-se pelas grutas do inconsciente, joga sua luz tênue, mas poderosa, sobre aquilo com que temos que lidar mesmo sem entender, seja dentro ou fora de nós. Não à toa, histórias sobrenaturais estão entre os relatos mais antigos da humanidade. E surgiram como “não ficção”, em uma tentativa de explicar os mistérios do mundo.

Nosso armário de monstros

Não há cultura que não tenha criado seus monstros nem projetado suas próprias aflições em criaturas fantásticas. Especulações sobre o que há – ou não há – após a morte já surgiram por toda parte. Por que na China seria diferente? Aliás, a poderosa mitologia fantasmagórica chinesa se espalhou por países do Leste Asiático, onde inspirou, por exemplo, histórias clássicas do cinema de horror japonês, tão admirado e imitado no Ocidente.
A força do imaginário fantástico da Ásia – e, portanto, da China – está em suas raízes ético-filosóficas e na capacidade de especular sobre a natureza do ser humano. Fantasmas, na tradição chinesa, são almas apegadas por algum motivo ao mundo dos vivos. Se bem-tratados, fantasmas malignos podem ser neutralizados ou até convertidos ao bem. Essa crença nos espíritos e em seu poder sobre os viventes nasceu, provavelmente, de rituais de adoração e culto aos antepassados. Sob a influência de preceitos taoistas e ideais confucianos, conferiu uma feição bem específica ao budismo de matriz chinesa. Em todos os países da chamada sinosfera há, ainda hoje, inúmeras celebrações em honra aos mortos, como o 盂兰盆节 Yúlánpén jié, o grande Festival dos Fantasmas, ou Festival do Fantasma Faminto. Celebrado na décima quinta noite do sétimo mês do calendário lunar, é uma ocasião para os espíritos desencarnados abandonarem o mundo ínfero e curtirem uma noite terrena em nossa companhia, momento de relembrar os antepassados. Suas origens remontam a um sutra budista e a data coincide com uma festividade taoista criada para o mesmo fim. Falando nisso, muitas histórias fantasmagóricas surgiram exatamente com o intuito de propagar preceitos religiosos, com destaque para a crença na reencarnação. Assim, a literatura fantástica chinesa é um caudaloso rio para onde afluem as três grandes correntes de pensamento na China.

Eles estão em toda parte

É possível dividir a ficção chinesa em quatro estilos: biji, chuanqi, prosa vernácula curta e prosa vernácula longa. Elementos fantásticos e/ou religiosos estão sempre presentes nos dois primeiros e em larga escala nos outros também.
O gênero 笔记小说 bǐjì xiǎoshuō, anotações de histórias não oficiais, é conhecido como 志怪小说 zhìguài xiǎoshuō ou apenas zhiguai, relatos de fatos estranhos. Para alguns historiadores, é o início da prosa ficcional chinesa propriamente dita. Desenvolvido entre os séculos 3º e 7º, é uma narrativa relativamente breve, escrita em linguagem clássica, e seus temas giram em torno, necessariamente, do universo sobrenatural. O nome desse estilo foi inspirado por uma passagem do Zhuangzi, uma compilação de anedotas e contos datada do Período dos Reinos Combatentes que, ao lado do Dao De Jing, figura como uma das obras fundamentais da doutrina taoista. É muito provável que vários autores de zhiguai acreditassem de fato nas criaturas e enredos de seus contos, buscando, com eles, convencer – ou converter – os leitores. Essa credulidade dos autores levou alguns estudiosos a questionar o caráter ficcional das obras, impregnadas de moralidade religiosa, seja budista ou taoista. Outra característica digna de menção é a ênfase dada à comunicação entre a esfera humana e a sobrenatural. Um dos principais exemplos do gênero é o 搜神记 Soushen Ji, coletânea de 464 histórias de autoria atribuída a Gan Bao, historiador da corte imperial que viveu entre os anos 286 e 336.

O gênero 传奇 chuánqí surgiu na dinastia Tang (618–907) e compreende, além dos contos maravilhosos ou bizarros (como o próprio nome diz), temas históricos, de amor e de heroísmo – embora o elemento fantástico ou transcendental também possa aparecer. Escritos em linguagem clássica, esses textos curtos também se valem de poesia em diversos momentos e abordam o sobrenatural de modo sensivelmente diferente dos zhiguai. Agora, os deuses e as entidades do outro mundo são menos voluntariosos e seus atos, menos arbitrários. O foco recai sobre as atitudes e o caráter dos seres humanos que podem, com honestidade e retidão, atrair a benevolência divina. Do ponto de vista da forma, esse estilo é influenciado pela historiografia, apresentando dados sobre as personagens (data e local de nascimento, breve genealogia etc.) antes do início da narrativa. Porém, apesar do formato biográfico, que confere certa verossimilhança, os autores de chuanqi já mostraram a intenção de dar um tratamento ficcional às suas histórias.
Na mesma época surgiram os 变文 biànwén – literalmente, “textos em transformação” –, uma forma literária que chegou ao conhecimento dos acadêmicos quase um milênio mais tarde, por causa de uma descoberta acidental nas cavernas de Dunhuang, província de Gansu. Descendentes diretos da literatura budista, os bianwen combinam narrativas em linguagem semicoloquial e cantigas com versos rimados, destinando-se à encenação no palco para difundir os ensinamentos budistas. Com o tempo, foram se desvinculando do caráter eminentemente religioso e se tornaram uma forma secular de entretenimento, com óbvia influência sobre o chuanqi.
Contos e romances vernáculos totalmente desprovidos de traços religiosos e sobrenaturais são, segundo os estudiosos, muito raros. A prosa ficcional curta começou a se delinear no período Song (960-1279) como um script para os contadores de história, e sua evolução é dividida em três fases. No início, o elemento sobrenatural costumava surgir em forma de engodo – demônios assumindo a aparência de uma jovem mulher que seduz o herói –, debelado somente após a intervenção de um mestre taoista. Na fase seguinte, já em meados da dinastia Ming (1368-1644), o imaginário budista assume relevância; os protagonistas são sacerdotes, e temas como reencarnação, carma e tentações mundanas passam a ser abordados. A moralidade que vincula os atos às suas consequências é uma característica importante. Finalmente, a partir da segunda metade do século 16, entra o terceiro ingrediente principal desse caldeirão: os princípios confucianos sincretizados com a religião popular.
O romance chinês, malgrado a denominação – uma tradução eurocêntrica de 章回小说 zhānghuí xiǎoshuō – não deve ser associado a uma prosa secular. Diversas obras basilares estão repletas de elementos mágicos e religiosos, como Jornada para o Oeste e O sonho da câmara vermelha, dois dos chamados Quatro Romances Clássicos Chineses. Se Jornada… funde budismo, taoismo e cultura popular, O sonho… apresenta, nitidamente nos conflitos centrais, o encadeamento cármico e a busca por iluminação e libertação do sofrimento emocional.

A bíblia do bizarro

Porém, a mais famosa coletânea de histórias sobrenaturais chinesas infelizmente ainda não atende por nenhum nome em português. Pode ser lida em traduções inglesas – com as (in)devidas liberdades e censuras que marcam a escola britânica de tradução… – com títulos como Strange Stories From a Chinese Studio e Strange Tales From a Chinese Studio. Há também opções em alemão, francês e russo, e a obra também já foi adaptada para HQ, cinema e TV.
Situado entre os séculos 17 e 18 – portanto, na dinastia Qing –, o 聊斋志异 Liáozhāi zhìyì (algo como “Contos estranhos do estúdio Liao”) mescla os estilos zhiguai e chuanqi para travestir de fantasia uma discussão sobre problemas reais. O autor, Pu Songling, molda seus monstros com a argila de questões sociais importantes de seu tempo, como a corrupção do governo e as injustiças contra as camadas mais pobres. Não é preciso muito esforço para enxergar a crítica política por trás das histórias e o lado sombrio da natureza humana responsável pelas distorções no sistema de relações pessoais e comunitárias.

Filosofia do Além

Segundo Hannah Lund, mestre em Literatura Mundial e Comparada pela Universidade de Zhejiang, histórias como as da obra de Pu Songling têm muito a ensinar sobre a nossa própria natureza. Mais que os monstros em si, o que nos assombra é nossa insegurança e impotência frente a essas criaturas – geradas por nossa imaginação exatamente para sediar nosso medo do incompreensível. Por outro lado, em diversas passagens de Contos estranhos…, os espíritos são de índole benévola, e conclui-se que são os nossos semelhantes quem realmente devemos temer. Como dizia minha sábia avó, “quem está morto já morreu. Medo a gente tem que ter é de gente viva.”
O Frankenstein de Mary Shelley nos apresenta um monstro corrompido pelos “normais” que o rodeiam e repelem; Freddy Kruger encontra em nossos sonhos o portal para perpetrar todo o seu sadismo; O Iluminado de Kubrick traz um protagonista que, graças ao isolamento, deixa-se tomar pela malignidade dos próprios instintos reprimidos; os fantasmas só mostram ao Scrooge de Dickens que é ele mesmo o flagelo dos que o cercam. Quanto às personagens de Pu Songling, uma jovem metamórfica que arranca o coração de quem tenta expulsá-la de seu lar personifica a força e a fúria da revolta do oprimido, enquanto um escritor abandonado pelo fantasma que o inspira evidencia os perigos da arrogância e da vaidade. Como não concordar com Lund quando defende que as criaturas sobrenaturais expõem a nossa própria face terrível? Que elas continuem, pois, entre nós. Para sempre, e sempre, e sempre.

Pequena loja de horrores

Conheça algumas histórias chinesas de fantasmas

 

• Quando uma pessoa morre, sua alma atravessa uma ponte para o Além, onde será julgada conforme suas ações em vida para determinar se receberá castigos ou a chance de reencarnar. Durante o período de espera, a alma pode ser resgatada desse universo paralelo e a pessoa, ressuscitada. É o que acontece no conto Wu Qiuyue, nome da heroína, uma fantasma que se apaixona por um homem. Em nome do amor, ele desce ao reino dos mortos, mas sua aventura tem consequências mais desastrosas para ela do que para ele.
• Se os ritos funerários não forem corretamente observados, a alma do falecido pode retornar à terra para assombrar os vivos. Isso também acontece por outras razões, como negócios pendentes, uma promessa, um erro a corrigir ou simplesmente saudades. No conto Pele pintada, um fantasma se disfarça literalmente vestindo a pele de uma mulher, pintada com as mais finas feições, para seduzir os incautos e manter sua dieta baseada em corações humanos. No tratamento de Pu Songling, a história serve de alegoria para as terríveis consequências do desejo. Com muitas variantes, o enredo inspirou adaptações audiovisuais.
• Frustrações e ganância em vida geram, no Além, seres de barriga enorme com boca e pescoço minúsculos que não deixam nenhuma comida passar. São os chamados “espíritos famintos”. Mas acredita-se que todos os fantasmas têm fome, por isso no festival Yulanpen, podemos aplacar sua fome e fúria recalcada com apetitosas oferendas para ficarem alimentados e felizes.
• Na mitologia chinesa, acredita-se que todos os seres são capazes de adquirir forma humana, poderes mágicos e imortalidade se receberem qi ou energia vital suficiente. O “espírito-raposa” é uma figura recorrente no folclore asiático. Ele se transforma numa bela jovem e tem o poder de enfeitiçar os homens e fazê-los perder a memória e o discernimento. Mas nem todos são vistos como malignos. No conto Guo Sheng, um escritor medíocre recebe a ajuda de um espírito-raposa inspirador e atinge a fama. Mas a soberba acaba por fazer com que seu fantasma camarada o abandone.