Por Sergio Maduro

Na estante de Ang Lee, cineasta radicado nos EUA, duas estatuetas do Leão de Ouro do Festival de Veneza disputam espaço: uma foi ganha com um filme falado em inglês, O Segredo de Brokeback Mountain, outra com um filme falado em mandarim, Desejo e Perigo, e baseado num romance chinês.

Pode-se dizer que esse é o resultado de uma China moderna, que domina muitas linguagens e procura dialogar com seu próprio passado e com os grandes protagonistas mundiais, dos quais também faz parte.

Talvez tenha sido essa inusitada presença da China fora de suas fronteiras que suscitou o recente interesse por Eileen Chang, escritora descendente de uma família tradicional de Xangai, permeável à influência europeia, que viveu entre a cultura chinesa e a cultura americana, muito antes do fenômeno da globalização.

De Ang Lee a Eileen Chang

Eileen Chang nasceu em Xangai em 1920 e foi encontrada sem vida, aparentemente dias depois de morrer em seu apartamento de Los Angeles, em 1995. Autora do romance Desejo e Perigo, em que Ang Lee baseou seu premiado filme, ela representa a improvável história de uma menina nascida na China continental, nos primeiros anos do século XX.

Chang passou pela invasão japonesa, pela Segunda Guerra Mundial, pela guerra civil. Escreveu, em chinês e inglês, livros, artigos e roteiros de grande repercussão, e autoexilou-se nos Estados Unidos, nos anos 1950.

Descendente de uma família de políticos proeminentes, Eileen Chang (张爱玲), nascida Zhang Ying (张瑛), e seu irmão foram os frutos de um casamento arranjado, que resultou num núcleo familiar tão disfuncional quanto de transição entre a família chinesa tradicional e a moderna. O pai viciado em ópio assumiu uma concubina, e a mãe de Eileen (então com cerca de quatro anos) abandonou a família e foi estudar na Europa. O pai passa a morar com a amante, e a relação de Chang com ele e a madrasta é muito ruim. Quatro anos depois de abandonar a família, a mãe retorna e tenta reatar a relação com o marido, mas logo o casal acaba se divorciando.

Capa chinesa de Love In A Fallen City

Ainda menina, Eileen demonstra talento para escrever e desenhar. Ela mesma também ilustrará mais tarde muitos de seus escritos, criando inclusive a capa de algumas de suas obras. Preparando-a para ser educada em um contexto inglês, sua mãe trocou seu nome chinês para Ailing, uma transliteração de Eileen, nome que ela usou desde que foi para a escola britânica.Aos 18 anos, Chang vai cursar literatura inglesa na Universidade de Hong Kong.

Após a ocupação japonesa nessa cidade, em 1941, retorna para Xangai e começa a escrever para se sustentar. Em 1943 é apresentada a um famoso editor e rapidamente se transforma em uma escritora bastante conhecida com 倾城之恋 (publicado em inglês sob o título Love in a Fallen City) e 金锁记 (em inglês, The Golden Cangue).

A própria Chang foi amante de um colaboracionista das forças de ocupação japonesa; depois casou-se com ele, mas logo foi traída e os dois se divorciaram. O traumático rompimento, aliás, foi a fonte de inspiração para 小团圆 Little Reunion, portentoso romance de 600 páginas. Em 1952 retorna a Hong Kong, onde trabalha na agência americana de notícias (United States Information Service) fazendo traduções e textos sob encomenda. Três anos depois, muda-se para os Estados Unidos, onde se casa novamente. Viúva em 1967,morreu sem filhos, aos 74 anos.

Xangai multicultural

Para interpretar a obra de Eileen Chang, é preciso conhecer a cidade com a qual ela guardou uma relação muito estreita durante toda a sua vida. Apesar de também ter morado por pouco tempo em Tianjin na infância, Xangai foi a sua placenta.

Conhecida como a “Paris do Oriente”, era uma metrópole de fronteira, no sentido simbólico do termo, pois era onde o Ocidente encontrava o Oriente por força da internacionalização da cidade, transformada em território bastante cosmopolita após a abertura dos portos e a instalação das concessões estrangeiras impostas pelos tratados desiguais da Guerra do Ópio, no século XIX.

Com vida cultural efervescente, ainda irrigada de ópio, gangsters, divas, atrizes e nightclubs, Xangai era compartilhada por diferentes culturas e nacionalidades, principalmente franceses e ingleses, de modo que ser chinês em solo xangainense era, nesses tempos, quase como sentir-se forasteiro.

É nesse ambiente que a língua inglesa começa a ser usada no cotidiano. Escolas privadas inglesas instalam-se na cidade, e traduções em chinês e em inglês começam a circular.

“Made in world”

Diante desses contextos pessoais e políticos de produção da escrita, é difícil encaixar Eileen Chang nos modelos tradicionais de classificação literária. Ela não é só mais uma escritora de língua chinesa ou inglesa, uma vez que transitava pelas duas culturas com certa desenvoltura e singularidade, sempre mantendo um olho no texto, outro no público que iria consumi-lo.

Ela aprendeu a modular sua escrita conforme seus leitores, construindo uma “persona” literária que conversava com o Ocidente e com o Oriente. Parece, assim, mais adequado que classificá-la, simplesmente destacar algumas características importantes de sua produção, as quais, segundo certos críticos, chegaram a colocá-la como candidata ao Prêmio Nobel.

A extensa obra de Eileen Chang está marcada por personagens que, em estado de tensão, buscam o amor e, muitas vezes, veem-se frustradas devido a pressões familiares, sociais ou da tradição.

O pano de fundo imediato de suas histórias é sobretudo a cidade de Xangai, mas também Hong Kong, especialmente nos anos 1940. Há quem afirme que Eileen Chang está tão identificada com Xangai quanto Joyce com Dublin e Balzac com Paris.

“Ela fez nome durante a ocupação japonesa. Tem uma escrita contida, nasceu numa família patriarcal e sofreu uma sequela psicológica na infância, que a afetou. Ronda suas obras certo pessimismo”, afirma o professor de literatura chinesa, Shu Changsheng, da Faculdade de Letras da USP.

O enredo é geralmente ancorado no dia a dia das pessoas, abstraindo o contexto político, traço original de sua escrita numa época em que o enfoque político marcava seus contemporâneos. Não se tratava de desprezar essas questões centrais de seu tempo; tratava-se, antes, de iluminá-las a partir de outro ponto de observação narrativo. Chang escreve num registro diferente, volta seu olhar para os pequenos detalhes e busca as respostas para as angústias nas minúcias da vida.

Muitas de suas histórias jogam luz sobre as mulheres de Xangai e sua ansiedade em relação ao casamento, ao medo de se tornarem solteironas ou concubinas sem status social. Mas outros aspectos da vida comum tampouco lhe escapam: fofocas na sala de espera de um consultório médico, a preparação de um casamento, os ciúmes dentro da família, as pressões de ser uma segunda esposa etc. Sem colocar o ambiente bélico e revolucionário em destaque, mas também sem ignorá-lo, ela surpreende, em sua narrativa, as almas humanas em uma situação de desamparo gerada por pressões sociais ou contingências políticas.

É importante destacar também que Chang foi uma das primeiras escritoras a “conversar” com diversas mídias, uma vez que escreveu livros de literatura, elaborou artigos para jornais e revistas, produziu roteiros para o cinema, traduziu e teve suas obras adaptadas para o rádio e para a TV.

A professora Ho Yeh Chia, do Departamento de Letras Orientais da USP, aprofunda algumas questões sobre a autora chinesa nesta entrevista exclusiva para a Instituto Confúcio.

Entrevista

Edição Portuguesa de Lust, Caution

Instituto Confúcio: A produção de Chang tem pontos de identidade com outras escritoras?  

Ho Ye Chia: Eu a colocaria junto com outra escritora tão sensível e talentosa quanto: Xiao Hong (萧红, 1911-1942), que escreveu poemas, além de crônicas. Ambas tinham uma escrita de alta qualidade, falavam do amor, dos sentimentos, da vida cotidiana e difícil das mulheres da época. Ambas eram brilhantes e estouraram assim que os editores as descobriram.

As duas trouxeram suas próprias vidas para suas escritas, tiveram problemas na família de origem, foram infelizes no amor e refletem vivamente o ambiente que conheciam bem – no caso de Eileen, a cidade de Xangai.

Ambas sofreram com as guerras. Elas foram as únicas da época que não falavam da política da maneira como os outros escritores o faziam – aberta e diretamente. Mas, justamente por isso, a meu ver, são eternas, porque qualquer mulher de hoje pode se identificar com suas personagens.

Poderia indicar duas de suas obras?

Lust, Caution (色戒). Ela levou 25 anos para revisar e reescrever esse trabalho, muito provavelmente por causa da difícil superação da mágoa pela traição do primeiro marido. Essa é uma das poucas obras em que Eileen falou de política de forma mais aberta.

The Fall of the Pagoda (雷峰塔). Originalmente escrito em inglês, depois traduzido para o chinês, mas no dialeto de Xangai, porque a tradutora queria que as descrições da vida cotidiana da cidade pudessem ser transmitidas de forma fiel e viva.

The Fall of The Pagoda

Que características tornam essa autora importante?

Sua primeira publicação foi quando tinha apenas 12 anos de idade, na revista da escola onde estudava. Foi um conto intitulado A (Menina) Infeliz (不幸的她) – tradução livre minha, já que não foi traduzido para o português.

Ela tem um estilo com fortes influências ocidentais, o que trouxe um modo novo de contar histórias. Também teve participação ativa nos roteiros de muitos filmes. Fez crítica de cinema ocidental, traduziu para o chinês importantes obras ocidentais, como O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, e verteu títulos relevantes da literatura chinesa para o inglês, como 海上花列传 The Sing-Song Girls of Shanghai.

Sensível e detalhista, sua maior contribuição na tradução de The Sing-song Girls of Shanghai foram as notas, que explicavam com grande propriedade a vida cotidiana em Xangai.

 

Para conhecer Eileen Chang

Rice Sprout Song

*Na ausência de traduções em português, os títulos estão em inglês, acompanhados dos originais, em chinês

Naked Earth

Rice Sprout Song (秧歌, 1955) e Naked Earth (赤地之恋, 1956), excepcionalmente, não são livros ambientados em uma cidade moderna, mas na China rural. A crítica especializada chamou a atenção para o fato de que essas duas obras foram recebidas pelos americanos como uma reportagem sobre a “China profunda”, mas Chang não conhecia tão bem a realidade rural de seu país.

Lust, Caution (色,戒, 1979) conta a turbulenta história de amor de uma jovem que trabalha numa fábrica em Xangai nos anos 1930 e se apaixona pelo filho de um rico comerciante. O livro foi adaptado para o cinema pelo diretor Ang Lee, num filme premiado com o Leão de Ouro em Veneza.

The Fall of the Pagoda (雷峰塔, 1963) é um romance, recheado de dados autobiográficos, escrito originalmente em inglês.