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Por Janaina Rossi Moreira

Não costumamos pensar em nós, a não ser quando precisamos desatar algum, seja ele real ou metafórico. É mais esperado que os associemos a embrulhos, cadarços e coisas do gênero… Resumindo, à noção de funcionalidade, jamais de arte. E isso é normal, pois surgiram bem cedo na vida do Homo sapiens para atender a várias das necessidades mais básicas do dia a dia: sem eles não teríamos roupas, nem uma série de ferramentas e utensílios fundamentais para o desenvolvimento da civilização, como machados, arcos e redes. Mesmo navegar seria coisa bem mais complicada se alguém não tivesse tido a ideia de usar os nós para medir a velocidade de uma embarcação. Na China, o caráter funcional é apenas o começo. Na terra de Confúcio, os 中国结 zhōngguó jié (literalmente, “nós chineses”) acabaram se tornando uma arte, que remonta às dinastias Tang (618 – 907) e Song (960 – 1279) e se popularizou de vez nos períodos Ming (1368 – 1644) e Qing (1644 – 1912). Só que a arqueologia aponta para uma origem ainda mais remota: a época dos Reinos Combatentes (481 – 221 a.C.), antes mesmo da unificação do país.

Amarrações

Antigamente nossos avós usavam do artifício de amarrar um barbante no dedo para se lembrar de algo importante: uma reunião, um jantar, um compromisso qualquer, ou mesmo tirar a roupa do varal. E vejam só, os avós dos chineses também usavam o mesmo truque para marcar eventos, firmar acordos e contratos, já que não havia escrita formal. Com o tempo, eles começaram a criar nós mais complexos para lembrar fatos importantes, nós mais simples para eventos mais corriqueiros, e em dado momento se viram diante de uma intrincada e nobre técnica, com inúmeras variações. Temos atualmente pouco mais de uma dezena de nós básicos, a partir dos quais são criadas variantes mais complicadas, pela combinação e/ou repetição dessas formas mais simples. E cada objeto precisa ter uma dupla camada, para que ambos os lados estejam em simetria. O material usado costuma ser o cordão de seda, ou semelhante.

Classificações

Há duas categorias mais comuns de nós chineses: aqueles feitos para pendurar na parede ou no teto, que se apresentam fixados num pendente ou corda, e os nós utilitários, que servem para adornar e amarrar roupas, pingentes (como os de jade, usados na região desde o período paleolítico), pulseiras, fivelas etc. Dentre esses tipos principais encontram-se diferentes variações, cada uma com um nome que remete ao significado ou formato.

De qualquer maneira, seja cumprindo uma função específica, seja fazendo as vezes de elemento decorativo, esses nós simbolizam ideias diversas, como o amor – que nada mais é que a união, o entrelaçamento entre duas pessoas – e a procura da felicidade. O panchang (盘长结 pán cháng jié, ou “nó de bobina longa”) é, de longe, o mais famoso. Complexo e místico, sua cor tradicional é a vermelha, e está ligado justamente à busca por uma vida feliz. Descendente direto do “nó infinito” (o shrivatsa indiano), remete a Buda e é comum encontrar uma moeda antiga amarrada a ele. Em geral o panchang é feito com um só cordão, simbolizando a vida eterna. Assim, cada dobra, torção e amarra corresponde às etapas inevitáveis no ciclo infinito da existência (não nos esqueçamos de que os budistas creem na reencarnação). O panchang também está ligado à longevidade.

Outro nó bastante popular é o wanzi (卍字结 wàn zì jié), conhecido também como “nó da virtude”. A letra 卍 wàn é mesmo o que parece: uma suástica. Esse símbolo de origem indiana acabou ficando associado a um dos episódios mais tristes da história humana, graças à apropriação bastante indébita por gente que de virtuosa não tinha nada. Só que, na tradição oriental, a suástica representa – entre outras coisas – a excelência moral e a boa fortuna. Em chinês, 卍 tem o mesmo som de 万 wàn, que significa “dez mil” ou “miríade”, um número que tanto no taoismo quanto no budismo é usado para exprimir o conceito da “totalidade das coisas”.

Nós de borboleta duplos transmitem aos casais votos de união e felicidade para toda a vida; quando atado em forma de peixe, o nó se transforma em amuleto para atrair riqueza e abundância material. Em tempos antigos, cordas douradas eram entrelaçadas inúmeras vezes, formando o chamado “nó do amor”. Existe até um poema de autoria de Meng Jiao (751 – 814), da dinastia Tang, que fala sobre ele. De fato, os nós têm uma presença tão forte e perene na cultura da China, que o mais recente e mais importante dos Quatro Grandes Romances Clássicos da literatura chinesa, O Sonho da Câmara Vermelha (红楼梦 Hónglóu mèng, escrito no século 18), discorre longamente sobre eles.

Colorações

Os nós chineses podem ser confeccionados em diversas cores e, como é de se esperar, a escolha não é arbitrária. Na cultura da China, bem mais do que na nossa, cada cor está associada a uma simbologia própria e imediatamente identificável para as pessoas. As cores remetem aos cinco elementos da cultura chinesa, aos pontos cardeais, a estações do ano, energias, animais e por aí vai.

Simplificando bastante, o vermelho, cor favorita dos chineses, está ligado ao fogo, à sorte, à alegria e à prosperidade, tanto que é tradicionalmente usado pelas noivas e evitado em ocasiões fúnebres. O verde (e o azul, geralmente considerado parte de seu espectro) corresponde, entre outras simbologias, ao elemento madeira, ao Leste (de conotação positiva por ser o lugar onde nasce o sol), à saúde a à harmonia. Já o amarelo é a cor do elemento terra e sempre foi carregada de prestígio, heroísmo e nobreza – tanto é assim que era exclusiva da casa imperial. Essas três são as principais cores auspiciosas para os chineses. Quanto ao branco, especialmente o que chamamos de “cru”, é cor do elemento metal e costuma estar ligado ao luto nas culturas do Leste Asiático. O preto é neutro, associado ao elemento água e considerado por Lao Zi, autor do Dao De Jing, como a cor do Tao. Também é mencionado como a “cor do Paraíso”.

De uma ponta a outra

Os limites de uso e formas dos zhongguo jie são os mesmos da nossa criatividade, ainda mais pelo fato de que hoje em dia qualquer um pode aprender a confeccioná-los por meio da infinidade de tutoriais facilmente encontrados na internet. Com eles se fazem anéis, brincos, braceletes e colares, prendedores de cortina, pingentes e, claro, aplicações, botões e fechos para o vestuário, mas também para bolsas, carteiras, luvas…

Hoje a indústria fatura alto em cima do nó e é fácil encontrá-lo em artefatos diversos. Quem compra esses suvenires muitas vezes não faz ideia de quanto tempo e da história há por trás deles. De qualquer forma, os nós chineses estarão para sempre entrelaçados à cultura e ao espírito do povo que os criou.

Mais e melhores nós

Os zhongguo jie mais comuns reproduzem motivos de plantas e animais, mas existem outros mais “abstratos”. A seguir, alguns exemplos.

纽扣结(niǔkòu jié)Nó de botão

O mais comum em fechos para o vestuário, é bem apertado, formando uma pequena esfera. É semelhante ao nó de faca dos marinheiros. Na variante plana, é conhecido como “nó de diamante”.

 

酢浆草结(cù jiāngcǎo jié)Nó de trevo

Em formato semelhante ao de um trevo, comporta uma série de variações, executadas sobre um nó básico bastante simples.

 

宝结(bǎo jié)Nó do tesouro

Assim como o nó usado nos botões, também forma uma bolinha, que pode ter mais ou menos voltas.

 

蝴蝶结(húdié jié)Nó de borboleta

Muito ornamental, costuma ser associado ao amor e à felicidade conjugal.

 

吉祥结(jíxiáng jié)Nó da boa sorte

Apesar de muito comum e antigo, só ganhou um nome específico recentemente, que foi dado em razão de ser esse tipo de nó frequentemente usado em amuletos e na decoração orientada pelos preceitos do feng shui.