Por Cesar Matiusso

O que há por trás da forma e do conteúdo dos ideogramas

“Mas você sabe ler aquelas ‘casinhas’?” Com frequência, chegam até mim perguntas como essa. Como faço se, geralmente, o funcionamento das tais “casinhas” é uma história longa demais para se contar? Eis um “desabafo” didático sobre os 汉字 hànzì (caracteres do povo han).

Admirados por sua beleza e complexidade, os ideogramas são guardiões do que há de mais fundamental no modo chinês de pensar e de viver. Neles, quase tudo se resume à universalidade dos elementos da natureza e da essência humana. Assim como conservamos em nós uma parte comum a todos os homens e mulheres, e todas as coisas no mundo têm por princípio a mesma matéria, os ideogramas expressam tudo que há entre o céu e a terra. Isso com oito tipos de traços, que compõem todas as dezenas de milhares de caracteres.

Não é à toa que, para tratar da escrita chinesa, resvalamos nas narrativas da gênese do mundo e do homem. Afinal, os ideogramas guardam uma origem mítica e um uso primordial sagrado. O mito mais repetido conta que teriam sido criados há mais de 5 mil anos por Cangjie, da corte do lendário Imperador Amarelo. Os achados arqueológicos da dinastia Shang (aprox. 1600–1046 a.C.) revelam, pelas inscrições em ossos e carapaças de tartaruga, que a escrita era, além de registro, uma prática divinatória, desempenhada por sacerdotes em rituais de sacrifício e consultas oraculares ao sobrenatural.

O poder da imagem

Nos primórdios da escrita, todos os caracteres eram 象形 xiàngxíng “pictogramas”. Ou seja, compunham graficamente a figura daquilo que representavam. Por isso, vemos que ideogramas como 木 “árvore, madeira” e 火 huǒ “fogo” realmente se parecem com aquilo a que se referem. Essa categoria é provavelmente a mais popular entre os não falantes de chinês, e é comum imaginar que toda a escrita chinesa se baseie nesse método.

Os pictogramas estão completa e diretamente ligados ao significado expresso e, portanto, não trazem nenhuma informação de pronúncia – são como placas de trânsito. É o oposto do que vemos no português e em outras línguas alfabéticas, em que uma palavra escrita se refere sempre ao som, e o som a um significado.

Parece simples criar um desenho estilizado daquilo que se pretende comunicar, mas à medida que a escrita evoluiu, o sistema precisou incorporar não apenas pictogramas, como também associações para a construção dos caracteres, além de indicações fonéticas.

O maior Lego do mundo

A combinação de radicais pictográficos gerou os 会意 huìyì “ideogramas associativos”. O sol 日 e a lua 月, por exemplo, formam 明 míng “brilho”. Se uma pessoa 人 se recostar ao lado de uma árvore 木, temos 休 xiū “descansar”. Por processos semelhantes, duas árvores 木 em justaposição formam 林 lín “bosque”; uma mão 手 acima dos olhos 目 forma 看 kàn “ver”. O líquido 氵 que vem do jarro 酉 é na verdade 酒 jiǔ “bebida alcoólica”. O ideograma 大 “grande” representa uma pessoa 人 de braços abertos. Ao traçar o firmamento acima dessa pessoa, temos 天 tiān “céu” e, para facilitar a memorização, pode-se pensar que, quando por esse céu tiverem passado um sol 日 e uma lua 月, terá chegado o dia de amanhã: 明天 míngtiān.

As palavras formadas por dois ou mais hànzì também são uma marca própria do chinês moderno. Afinal, não apenas os radicais se combinam em um ideograma, como também os caracteres se combinam em palavras.

Sons e ideias abstratas

Também são abundantes os 形声 xíngshēng “ideogramas com indicações fonéticas”, que de forma geral tornaram possíveis mais usos dos elementos já existentes e se provaram muito eficazes na expressão de conceitos abstratos. Quando uma ideia é abstrata e não remete a uma imagem, o pictograma perde o sentido. Por exemplo, uma figura nos vem à mente ao pensarmos na palavra “flor”, mas qual imagem pode representar “entretanto”?

A maior parte dos caracteres em uso hoje combina componentes semânticos (relativos ao significado) e fonéticos (relativos à pronúncia). Os elementos semânticos já não garantem uma referência gráfica tão exata quanto nos pictogramas, mas ajudam a criar associações. A pronúncia também costuma ser aproximada: há casos em que é idêntica à do componente fonético, mas também pode ter um som apenas parecido.

É comum que, no começo, nos atenhamos a conhecer os fascinantes radicais pictográficos, e só depois atentemos para o papel dos componentes fonéticos. Descobrimos sua importância ao perceber que nesses componentes está a única dica de como pronunciar um ideograma desconhecido.

Unindo sons e sentidos

O mesmo elemento pode aparecer indicando o significado em um ideograma e a fonética em outro. No caso de 妈 “mãe”, formado por 女 “mulher” e 马 “cavalo”, o componente à esquerda faz menção ao sentido (toda mãe é mulher), enquanto o da direita traz a referência fonética: a pronúncia de “mãe” () em chinês é muito próxima à de “cavalo” () – a única diferença está no tom. Assim, 马 “cavalo” indica a pronúncia, e 女 “mulher” diferencia o termo de outros caracteres de pronúncia aproximada ou idêntica, como 骂 “repreender” e 码 “código”. Todos contêm o mesmo elemento fonético, combinado a elementos semânticos que os distinguem uns dos outros.

Em outros hànzì, o componente 马 “cavalo” tem relação direta com o significado, enquanto a pronúncia é indicada por outros elementos. O ideograma 骑 “montar” (cavalos, bicicletas ou motos) tem significado correlato ao de cavalo 马, mas sua pronúncia é indicada pelo componente à direita: 奇 “estranho”. A palavra 驾驶 jiàshǐ “conduzir veículos” tem dois caracteres com o radical 马 indicando seu sentido. Em ambos, ele é acompanhado pelos respectivos elementos fonéticos: 加 jiā “adicionar” e 史 shǐ “história”.

O ideograma 青 qīng, antigamente usado para designar ora o verde, ora o azul, muitas vezes surge como componente fonético. Em todos os casos na tabela, ele compõe o caractere junto a um elemento de sentido.

Empréstimos

Os 假借 jiǎjiè “empréstimos” também compõem a escrita chinesa. Sobre essa denominação, sempre me pergunto: se alguém pega um objeto emprestado e nunca mais o devolve, a ponto de o dono o substituir, isso ainda é considerado um empréstimo? Em chinês, o uso de alguns caracteres por conta de seu som foi tão notório que eles acabaram substituídos por outros em seu posto original.

Um dos casos mais famosos é 来 lái “vir”, que é o pictograma de um feixe de trigo. A princípio, significava… trigo! Porém, passou a ser usado como forma escrita do verbo “vir”, já que as duas palavras tinham pronúncia aproximada no chinês antigo. Com o uso cada vez mais frequente na grafia do verbo, 来 lái deixou de ser reconhecido como o substantivo que denomina o cereal, e outro caractere, 麦 mài, teve que ser usado em seu lugar.

Os traços básicos

Agora, podemos focar na forma dos hànzì. Para começar, todos são escritos a partir de oito tipos de traço, cada qual com um nome simples – algo como “horizontal” ou “vertical”. Esses traços, contudo, também se combinam entre si, podendo vir acompanhados por um ou mais atributos: “com gancho”, “com cotovelo”, “com curva” etc. O caractere 永 yǒng (eterno) é famoso por conter todos os oito fundamentais. Vale frisar que os traços básicos que compõem o ideograma não são rabiscos aleatórios. Obedecem a normas caligráficas que determinam sua ordem, direção e proporção: “primeiro o de cima, depois o de baixo” e “primeiro à esquerda, depois à direita” são dois dos princípios mais elementares da ordem de escrita.

Os radicais

Muitos dos ideogramas mais primários se tornaram as peças usadas na confecção de outros caracteres e ganharam a alcunha de 部首 bùshǒu “radicais”, que trazem a informação semântica do ideograma. Na falta de um alfabeto, é por eles que são organizados os dicionários tradicionais chineses, pois funcionam como “raiz” do caractere ou palavra. A maioria dos dicionários usa uma lista de pouco mais de 200 radicais. De certa forma, a construção dos ideogramas se dá de forma bastante orgânica, e conhecer um pouco do seu funcionamento gera uma relação mais direta com sua origem e seu significado. Aprender os radicais é, o tempo todo, rever alguns pictogramas e retomar as origens da escrita. Só há um radical por ideograma, e sua posição mais comum é do lado esquerdo, mas não é raro ser encontrado no alto ou na parte inferior.

Alguns radicais tiveram sua forma adaptada para facilitar a composição visual dos caracteres. Pessoa 人, por exemplo, tem uma versão “verticalizada” (亻) quando aparece em 你 (você), e em vários outros casos. O radical de água pode ter sua forma reduzida de 水 para 氵, componente que se chama, em chinês, 三点水 sāndiǎnshuǐ “água de três pontos”, em referência aos traços usados. Também existe o chamado 四点火 sìdiǎnhǔo “fogo de quatro pontos”, quando o radical de fogo 火 é reduzido para 灬 em ideogramas como煮 zhǔ “cozinhar” e 热 “calor”.

Palavras

“Cada símbolo daqueles é uma palavra?” também é comum de se ouvir quando o assunto é escrita chinesa. De fato, um ideograma pode equivaler a uma palavra. Mas é preciso lembrar que o número de sílabas possíveis em uma língua é sempre limitado. O que acontece, portanto, é que os sons se repetem, e há dezenas de caracteres cuja pronúncia corresponde à mesma sílaba. Para evitar ambiguidades, a maioria dos termos no chinês moderno é composto por mais de um ideograma. Em muitos casos, os dois caracteres têm significados parecidos que reforçam o sentido geral. É o caso de 驾驶 jiàshǐ “dirigir” (um veículo), formado por 驾 jià “dirigir” e 驶 shǐ “pilotar”.

Se, por um lado, usar caracteres de sentidos próximos desfaz ambiguidades fonéticas, por outro, ideogramas de significados diferentes são usados para formar novas associações. Mais uma vez, elas revelam a lógica chinesa, como vemos nos exemplos anteriores.

Cada caractere pode ser usado na formação de um grande número de palavras, e seu próprio sentido passa a depender de onde está inserido. Por exemplo, o ideograma 学 xué, cujo significado mais comum é “aprender”, pode compor diversas palavras correlatas, conforme se vê na tabela.

E quantos são os ideogramas?

Estamos tratando de um sistema de unidades bem mais complexas que uma letra alfabética, e as possibilidades de combinação de traços, radicais e ideogramas tendem ao infinito. De modo geral, considera-se que alguém que domine a língua chinesa escrita conheça em torno de 2 mil ideogramas mais frequentes, e embora já seja possível se comunicar e ler textos simples com menos que isso, indivíduos com alto grau de instrução conhecem muito mais caracteres. Mesmo assim, aprender todos os ideogramas é uma tarefa impossível, a começar pelo fato de que muitos deles se perderam ou caíram em desuso. Alguns dos maiores dicionários contam com cerca de 90 mil caracteres, mas inúmeros são considerados “mortos”.

Escrever a mão é importante

É geralmente mais fácil ler que escrever um ideograma. Os radicais ocupam seus espaços de acordo com uma “diagramação” clássica, e é importante conhecer a ordem dos traços para que proporção e equilíbrio sejam mantidos. Por isso, a dica é praticar ao máximo a escrita a mão. Ela fortalece a memória visual e desenvolve a chamada memória motora: os músculos da mão, aos poucos, aprendem o “caminho” dos traços dos caracteres e passam a grafá-los de forma mais automática, assim como fazer uma assinatura costuma se tornar um gesto único e contínuo. Quando for difícil se lembrar de um hànzì, usar uma caneta pode ser mais útil que tentar formar uma imagem mental.

Sobre as engrenagens

Na escrita chinesa, os caracteres conservam visíveis os raciocínios e caminhos usados na construção de sentido. Vislumbrar o funcionamento das engrenagens dessa máquina enorme, assustadora e admirável vale a pena, pois nos faz descobrir que a língua não é só uma representação do mundo, mas também o trilho por onde correm nossos pensamentos. Aprender um novo idioma é, portanto, conceder a eles novos percursos e destinos.