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Um guia para você enfrentar esta fase complicada – e sair dela melhor do que entrou

“Nosso corpo é um templo”, “com saúde se pode tudo”, “o que não mata fortalece”, “crises são oportunidades”… Clichês são clichês por conterem verdades consolidadas da sabedoria popular. Em nossa época hiperconectada, mudanças vertiginosas que antes levavam anos agora acontecem em meses – ou, no caso da situação que o mundo enfrenta agora, em semanas ou dias. Assim, já temos um novo clichê: nunca mais voltaremos ao mundo que conhecíamos até o início de 2020. O desafio não é só “resistir” ao confinamento temporário, mas também incorporar novos hábitos de forma permanente. Afinal, passado o auge da pandemia, talvez ainda tenhamos de alternar, por algum tempo, períodos de normalidade e de isolamento social. Nesta seção, convocamos justamente a sabedoria antiga (da medicina tradicional e alguns hábitos orientais) para manter mens sana in corpore sano dentro do nosso lar. Hoje, amanhã e depois de amanhã.

As dicas da Medicina Tradicional

Por Christian Oliveira

Infinito particular: a casa

Nossa casa é nosso universo privado, impregnado da nossa história e personalidade. Ao fim do dia, ansiamos em voltar para lá. Agora, porém, estamos obrigados a não sair dela. O que podemos fazer para que o ambiente doméstico não passe a ser encarado e sentido como uma prisão? Como nos proteger do estresse do confinamento que pode amargar a doçura do lar? Encerrados por muito tempo num espaço físico limitado, ficamos com o pensamento a 100km por hora: são preocupações e incertezas demais, somadas à falta de acesso ao mundo lá fora, aos entes queridos e às atividades costumeiras. Já o corpo, por conta da queda na movimentação física está, quando muito, a 10km por semana.

Segundo um princípio filosófico da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), existem no universo duas forças essenciais que são opostas, mas complementares: a energia yin (associada ao frio, à passividade, à cooperação e à intuição) e a energia yang (associada ao calor, à atividade, à competição e à racionalidade). A mente de uma pessoa confinada pode ter excesso de yang e/ou falta de yin e seu corpo, excesso de yin e/ou falta de yang. A desarmonia gera estagnação da energia global e provavelmente acarretará um consumo inadequado do jing, a essência do ser humano, herdada de ancestrais ou adquirida via alimentos, líquidos e respiração. Para que o confinamento não nos debilite, podemos pôr em prática algumas estratégias para preservar e reorganizar essa energia, além de melhorar o sistema imunológico.

Comer e curar-se

A dietoterapia chinesa prega a inclusão de todos os sabores nas refeições (amargo, azedo, picante, doce e salgado), bem como as energias neles contidas. É preciso dosar os alimentos de característica yin, que refrescam e tranquilizam (como melão, banana, pepino, hortelã), e os de características yang, que aquecem e aceleram (pimenta, gengibre, noz-moscada, canela etc.). Em tempos de crise, não nos damos ao luxo de escolher a comida: pensamos na sobrevivência e, portanto, na necessidade de consumir calorias, quaisquer que sejam. Às vezes, porém, o confinamento gera escassez de ingredientes. Criatividade, no caso, é fundamental.
Você deve estar se movimentando pouco e, por isso, alimentação leve e saudável é muito importante para não sobrecarregar seu organismo. Evite produtos industrializados e processados e prefira alimentos que promovam a circulação energética no corpo (qi). Então, o que devemos ingerir?

  • Alimentos que potencializem o sistema imunológico: frutas cítricas, folhas verde-escuras, feijão, lentilha, ervilha, grão de bico, nozes, castanhas, amêndoas, fontes de ômega-3, tomate, gengibre, pimenta, alho, cebola e própolis, entre outros.
  • Proteína animal ou vegetal.
  • Cereais, tubérculos e raízes.
  • Alimentos ricos em fibras, que reduzem o colesterol e melhoram o funcionamento do intestino.

Além disso, o ideal é evitar cozinhar demais os legumes, sobretudo se já foram devidamente higienizados, para que não percam nutrientes importantes. E não esqueça: beba ao menos dois litros de água por dia, reduza o sal – e aumente os temperos –, evite o consumo excessivo de doces, álcool, frituras, alimentos muito gordurosos, refrigerantes e demais bebidas industrializadas e ricas em açúcar. Últimas dicas, não menos importantes: coma devagar, num ambiente tranquilo e faça um prato bonito e colorido – quanto mais cores nas refeições, mais saudáveis elas serão.

Hora zen

A meditação desenvolve habilidades como concentração, tranquilidade e foco no agora. Ao criar um instante de distanciamento da realidade e das preocupações, ela nutre o corpo e o espírito com a força necessária para encarar diversas situações.
No confinamento, a prática diminuirá a energia yang e estimulará a energia yin, o que vai aquietar a mente e auxiliar na criação de ferramentas internas para lidar com o estresse. Antes de começar, saiba que é preciso ter calma: comece com poucos minutos e aumente o tempo gradativamente. Os “ingredientes” básicos da meditação são os seguintes:

Conforto. Sente-se em uma almofada com as pernas cruzadas e costas eretas. Se preferir, use uma cadeira firme e deixe os pés bem apoiados no piso. O importante é estar confortável, focado e não dormir.
Rotina. Tente meditar todo dia, e sempre no mesmo horário, para que isso se torne um hábito.
Concentração. Foque toda a sua atenção na respiração. Perceba o ar entrando e saindo pelas narinas. Não acompanhe seus pensamentos, deixe-os passar como a água do rio enquanto você fica na margem. Pode usar facilitadores como uma música calma ou sons da natureza. Encontre a melhor forma para você.
Não se frustre. Se perder o contato com a respiração e mergulhar em pensamentos, tudo bem. Reconheça a distração e, gentilmente, traga a atenção de volta à respiração.

Automassagem

A automassagem controla o estresse, reduz a ansiedade, alivia a tensão e as dores de cabeça e musculares, melhora a circulação sanguínea, o sistema imunológico e diminui a pressão arterial. Deve ser feita em local silencioso e dura poucos minutos. Siga a orientação.

  • Sentado, feche os olhos, apoie toda a coluna no espaldar da cadeira e deixe os braços estendidos ao lado do corpo.
  • Respire profundamente 3 vezes seguidas e coloque a mão direita sobre o ombro esquerdo. Aperte toda a região que vai da nuca até o ombro, tentando relaxar. Faça o mesmo no outro lado.
  • Apoie as duas mãos na nuca e no pescoço e, com as pontas dos dedos, massageie a nuca como se estivesse digitando. Volte a fazer a massagem desde o pescoço até os ombros.
  • Coloque as duas mãos na cabeça e faça movimentos circulares em todo o couro cabeludo com as pontas dos dedos.
  • Retese por alguns segundos e depois solte regiões como braço, antebraço, coxa e panturrilha.
  • Você também pode massagear seus pés: mergulhe-os numa bacia com água quente e, após alguns minutos, deslize e pressione os dedos da mão pela planta de cada pé.

Velhos hábitos, novas práticas

Por Ana Lourenço

Choques culturais são um assunto que sempre rende – principalmente risos e censuras. Mas se deixarmos o preconceito e o sentimento de superioridade de lado, veremos que todo povo tem alguma prática que poderia nos ser útil. Os tempos são de readequação e incorporação de novos hábitos. Então, que tal conhecer e, talvez, incorporar alguns costumes chineses bastante simples que podem melhorar a saúde do corpo e tornar mais saudáveis e agradáveis os ambientes que frequentamos? Aqui vão dois deles.

Sapato sujo não entra

Geralmente, estranhamos quando o amigo chinês nos pede para tirar o sapato antes de entrar na sua casa. Reconhecemos que é mais higiênico mesmo, contudo, vai além disso: deixar na entrada o calçado que se usou na rua é um gesto de polidez. E não estamos falando de andar descalço no chão frio da casa. Os anfitriões costumam colocar à disposição alguns pares de chinelos de tamanhos diferentes.
Entre os chineses, essa é, há muito tempo, uma forma de evitar trazer para dentro de casa a sujeira e os germes da rua, e eis que acaba de ganhar destaque no rol das recomendações de médicos e especialistas para evitar a contaminação do ambiente doméstico. Agora, com um vírus altamente contagioso à solta, mais do que nunca é vital evitar andar por nossos quartos, salas e cozinhas com o mesmo sapato usado lá fora, principal ponto de contato com calçadas e pisos potencialmente contaminados.
A praxe de barrar os “sapatos de rua” na entrada das residências surgiu há mais de dois mil anos. Na China, o hábito de sentar, dormir e comer em mobílias rentes ao chão tornava indesejado o uso dos calçados dentro do espaço doméstico. Na Era Medieval, com a introdução de cadeiras, mesas e outros móveis altos, o costume caiu em desuso e passou a ser visto como “fora de moda” até ressurgir, ninguém sabe ao certo como, em algum momento do século 20.
Hoje, estudos científicos apontam que os sapatos são um “terreno fértil” para a sobrevivência dos microrganismos, que podem permanecer até cinco dias nos solados – especialmente os feitos de borracha, couro e PVC. A recomendação básica é não só descalçá-los antes de entrar em casa como higienizá-los com sabão ou álcool 70%.

Um brinde à água quente

Um ocidental a passeio pela China que decide pedir água em um restaurante pensando em se refrescar normalmente se surpreende ao receber um copo de água quente. Água gelada? Pode esquecer.

Quente ou fria, é impossível questionar o papel fundamental da água e da hidratação para a manutenção da vida: ela compõe cerca de 70% do corpo humano, regula a temperatura interna e assegura a estabilidade das funções orgânicas. Uma pessoa com baixa hidratação pode ter alterações na pressão sanguínea e na frequência cardíaca. Um adulto normal pode sobreviver 20 dias sem comida, mas não dura 4 sem água.

Quanto à água “quente”, beber um copo entre 29o e 36o Celsius, a qualquer hora do dia, tem, segundo a medicina tradicional chinesa, o potencial de melhorar o fluxo sanguíneo e desintoxicar o corpo. Muitos chineses acreditam que bebidas frias não podem ser misturadas com a comida quente: isso prejudicaria o processo de digestão. Faz sentido, visto que o estômago gasta mais energia para neutralizar a temperatura fria da bebida.
É estranho no começo, mas basta querer para conseguir se acostumar. A medida é muito simples de ser posta em prática, e seus benefícios são comprovados. Pensando nos dias que vivemos hoje, ingerir água quente não previne infecções virais, mas pode ser útil de outras formas, pois, em temperatura próxima à do corpo, alivia inflamações de garganta e a ajuda a expelir secreção e muco com mais facilidade. Isso potencializa o tratamento caseiro para doenças passageiras, evitando que as pessoas tenham de ir ao hospital em um momento de tamanha turbulência.