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Por Janaina Rossi Moreira

Os chineses, com sua cultura tão rica quanto longeva, parecem ser bastante seletivos. Contam-se nos dedos de uma só mão as obras literárias que mereceram ser apontadas por eles como obras-primas da era pré-moderna. Trata-se dos “Quatro grandes romances clássicos” (四大名著 sì dà míngzhù). São eles: À Margem da Água (水浒传 shuǐhǔ zhuàn), atribuído a Shi Nai’an, Romance dos Três Reinos (三国演义 sānguó yǎnyì), de autoria de Luo Guanzhong – ambos escritos no século 14 –, Jornada ao Oeste (西游记 xī yóu jì), de que já falaremos bastante, e o “caçulinha” – nascido provavelmente pelas mãos de Cao Xueqin no século 18 – O Sonho do Pavilhão Vermelho (红楼梦 hóng lóu mèng). Este último é considerado um texto tão importante que gerou um campo de estudos acadêmicos exclusivo – o红学 hóng xué (literalmente “estudos vermelhos”, ou algo como “vermelhologia”).

Mas o assunto aqui não é o mais estudado, e sim o mais famoso e profícuo em traduções e adaptações, sequências e spin-offs. Arrisco mesmo dizer, o mais querido. E não só no mundo oriental.

Um macaco rouba a cena

Escrito no século 16 (portanto, na dinastia Ming), seu provável autor é Wu Cheng’en, e, assim como os outros três romances, parte de um fato histórico – no Leste Asiático, a prosa de ficção não gozava de grande prestígio. No caso da Jornada…, o mote verídico é a peregrinação do monge Xuanzang à Índia, em busca de escrituras budistas. Isso aconteceu no período Tang, quase mil anos antes de o livro ser escrito, e a viagem de Xuanzang foi longa e cheia de percalços.

O romance combina a façanha do protagonista a elementos folclóricos, budistas, taoistas, anedóticos, além de canções populares e da própria imaginação do autor. Wu Cheng’en faz o próprio Buda incumbir o monge da perigosa missão. Mas o Iluminado designa três seres mágicos para acompanhá-lo e protegê-lo.

Um deles é o marechal Zhu Bajie, parte homem, parte porco. Tolerante, otimista e coração-mole, também é glutão, preguiçoso e mulherengo, e foi por não resistir a um rabo-de-saia que o expulsaram do Céu. Cativante e responsável por inúmeros momentos cômicos, é também poderoso, apesar de ser chamado constantemente de “idiota” ao longo da história.

Outro banido do reino celestial é Sha Wujing. Foi condenado a reencarnar na Terra como um demônio comedor de areia, não sem antes ser açoitado 800 vezes a mando do Imperador de Jade, o grande mandatário celeste. Como se não bastasse, todos os dias sete espadas caíam do céu em direção ao seu peito. Tudo isso por ter quebrado um vaso extremamente valioso. E pior, na versão relatada no romance, nem sequer foi de propósito. Pudera que ele acabou se tornando um bad boy. Mas durante a jornada, ele vai se transformando num ser benévolo. Sábio, faz um contraponto à comicidade de Zhu Bajie e do Rei Macaco.

E agora, com vocês, Sun Wukong, o Rei Macaco. Foi ele quem acabou virando a personagem mais importante do livro, tanto que em muitas adaptações é seu nome que aparece no lugar do título. Os sete primeiros dos 100 capítulos de Jornada ao Oeste são dedicados ao nascimento, formação, ascensão e queda de Sun. Nascido de uma espécie de ovo de pedra, acaba por tornar-se rei dos macacos, por sua coragem, força e sabedoria. Discípulo genial de um grande monge, é craque em artes marciais e domina o idioma dos homens. Possui também inúmeros poderes – como voar, transformar os pelos de seu corpo em réplicas de si mesmo e assumir 72 formas diferentes. Chega a ganhar um posto no Céu. Mas não é recebido como um igual, sendo constantemente lembrado de sua condição de bicho. Ressentido com o bulying celestial e atormentado pela condição de mortal, come os pêssegos da imortalidade, bebe do vinho dos deuses, liberta os cavalos do Paraíso e volta à Terra para armar uma rebelião contra os deuses. E a luta é tão acirrada que Sun Wukong só é finalmente detido quando Guanyin, a Deusa da Misericórdia, atira uma flor em sua direção, derrubando-o.

Após perder uma aposta com Buda, o Rei Macaco encara 500 anos de prisão, até que recebe a incumbência de formar a comitiva da jornada para o Oeste. Mas como garantir que o indômito, violento e poderoso (e, agora, ainda mais revoltado) Sun vá andar na linha? É de novo a Deusa da Misericórdia que, por meio de um arco dourado que coloca na cabeça do macaco, consegue contê-lo.

Assim, ele, Zhu Bajie, Sha Wujing e Bai Longma (o Cavalo-Dragão Branco), filho do Rei Dragão, unem-se ao monge Xuanzang. Seguem-se dezenas de capítulos com as mais variadas peripécias, ao longo dos quais as personagens vão evoluindo – note-se a metáfora da Misericórdia contendo a violência que acabei de mencionar, e que já acena nessa direção. Isso espelha o próprio caminho budista rumo à iluminação: humildade e compaixão são algumas das virtudes alcançadas por Sun.

Das Sagradas Escrituras às Esferas do Dragão

São tantos e tão rocambolescos os episódios de Jornada ao Oeste (mesmo no resumo mais detalhado do prólogo dedicado ao Rei Macaco, foi preciso deixar várias passagens de lado), que a história tem sido um prato cheio para outras criações, em todas as mídias que existem. A clássica saga japonesa de animação Dragon Ball foi declaradamente inspirada no romance chinês. Goku é a versão no anime do Rei Macaco (note que, mesmo depois de virar gente, ele preserva o rabo); seus poderes, personalidade e armas são em grande parte muito parecidos com os da antiga personagem (o bastão mágico que muda de tamanho, as transformações…), e a busca pelas sete Esferas do Dragão substitui a dos sutras (escritos sagrados budistas). Quanto às demais personagens, Yamcha é inspirado em Sha Wujing, o porquinho fardado Oolong (o mesmo nome do chá!) é uma versão de Zhu Bajie. Aliás, sua expulsão da escola por roubar calcinhas da professora ressoa a luxúria do homem-porco de Jornada ao Oeste, mandado embora do Paraíso após dar em cima de uma deusa. Já a serelepe Bulma é o monge Xuanzang, transformado em garota e apimentado com uma personalidade bem forte. Finalmente, tanto o anime quanto a obra que o inspirou tratam da ascensão do espírito, rumo à sabedoria e à bondade.

Mas nem só de Dragon Ball (re)vive a epopeia do Rei Macaco. Os leitores fãs de game devem ter reconhecido o Wukong de League of Legends, apenas um dos jogos influenciados pelo clássico chinês. Mesmo no universo de mangás e animes, há outras versões de sucesso que se apropriam dele. No cinema, acumulam-se títulos dos mais diversos gêneros. Um exemplo recente é a superprodução chinesa em live-action A Lenda do Rei Macaco. São dois filmes: o primeiro é baseado no prólogo de sete capítulos sobre Sun Wukong, e o segundo aborda a viagem ao Oeste propriamente dita. A obra é bem fiel ao original. Com o mesmo título, há um longa de animação que, pelos comentários na rede, foi um sucesso de público. É impossível colocar aqui a lista completa de filmes, animações, HQs, séries de TV e jogos adaptados do romance. Vale pesquisar com calma na internet. Isso tudo sem mencionar que a história é tema frequente na Ópera de Pequim e no teatro de marionetes, e existem associações entre o símio protagonista e o signo do macaco no horóscopo chinês.

Quanto às traduções, elas são abundantes na maioria das línguas asiáticas e nos principais idiomas do Ocidente – uma versão integral direta do chinês está disponível em espanhol. E em inglês, há diversas traduções e adaptações célebres, inclusive uma versão completa e comentada, em quatro volumes. Em português, como quase sempre, as opções são mais escassas. Entre as edições em nossa língua estão os dois volumes lançados pela editora Conrad, os primeiros de uma série de três, contendo a íntegra da obra. A editora Odysseus também traz em seu catálogo uma adaptação intitulada Macaco: uma jornada para o oeste.

Iguais nas diferenças

Para além do evidente apelo da personagem, muito forte, poderosa, cheia de dualidades, petulante, inteligentíssima (na cultura chinesa o macaco é símbolo da inteligência), carismática, engraçada… é bem possível que ela tenha conquistado tamanha adoração por ser mais humana que os próprios seres humanos da história. Até dá para desconfiar que, muito antes de Darwin, a humanidade já intuísse que somos parentes bem próximos do macaco. Ele é bom demais para a Terra, mas não suficientemente bom para figurar entre os deuses. Como nós, que nos dizeres de um polêmico filósofo contemporâneo, “sabemos mais do que devíamos e menos do que precisamos”. Esse ônus da racionalidade (medo da morte e do desconhecido) é o fundamento das angústias humanas, e também da arte. A condição limítrofe entre terreno e divino foi, no Ocidente, abordada com brilhantismo pela mitologia grega e pelas tragédias, por exemplo.

E há as várias semelhanças com elementos de outras culturas. Uma das mais evidentes é Hanuman, divindade do hinduísmo e personagem das epopeias sânscritas Mahabharata e Ramayana. Hanuman tem corpo de homem e cabeça de macaco, poderes e também é designado por um ser divino superior (no caso, Krishna) para servir a um mortal (no caso, Arjuna). E nem é preciso forçar a barra para nos lembrarmos de passagens do Velho Testamento (como os pontos em comum entre os frutos da Árvore da Sabedoria e os pêssegos divinos); da hybris grega (“descomedimento” que causa o infortúnio e o castigo divino) ou do mito de Prometeu. Podemos pensar na espada Excalibur no episódio em que Sun Wukong consegue se apoderar do pilar do Rei Dragão dos Mares. Há um quê de Lúcifer em Sha Wujing, e, no Rei Macaco, do fanfarrão deus Baco (Dioniso), outro “outsider” do Paraíso, tão simpático e alegre quanto capaz de violências sem limite.

E vamos parar por aí, pois basta para atestar a coincidência de conceitos filosóficos e morais, de enredos, arcos narrativos e metáforas presentes nas mais diversas tradições. Cada mito, cada lenda, cada história é única, mas trata, a seu modo, das mesmas e eternas questões universais. A humanidade é uma só, e as diferenças nos detalhes só confirmam esse fato no quadro maior. Como a linguagem, como o pão, os relatos simbólicos fundadores de cada cultura surgiram em todos os cantos onde já houve gente. Cada um com seu gosto, seu estilo, sua forma e sua receita. Cada um condicionado pelo ambiente, pelas necessidades e possibilidades do povo que o criou. No final das contas, o percurso dos heróis é a própria condição humana, tomando consciência de si mesma.

As coisas simples da vida

Apesar de ser divertido, apaixonante e, para alguns, praticamente inevitável, não é preciso muito para extrair o melhor das páginas de Jornada ao Oeste. Qualquer pessoa pode acessar esse universo incrível no contato direto com o texto. Afinal, o que nunca muda, nem com o tempo, nem com as diferenças culturais, são a necessidade e o prazer demasiado humanos de ouvir e contar boas histórias. E a terceira das quatro obras-primas chinesas está cheinha delas.