Por Shi Yue

Elemento importante do artesanato popular da China, os objetos laqueados são utensílios diários, peças de artesanato e obras de arte revestidos por camadas de laca.

No início da década de 1980, a laca estava em alta, especialmente a variedade entalhada, produzida em Pequim. Naquela época, as vultosas encomendas para exportação rendiam às empresas estatais ganhos significativos em moeda estrangeira. Nos anos 1950, a Fábrica de Laca Entalhada de Pequim era uma das companhias que melhor pagavam seus funcionários. Muitas famílias buscavam contatos especiais a fim de conseguir um emprego para seus filhos ali. Mas o tempo passa e as coisas mudam. Hoje, ainda que continuem tendo muitos apreciadores, a curva de mercado na última década mostra que os objetos laqueados perderam atrativo do ponto de vista dos colecionadores. Fora dos museus, coleções privadas desses objetos são cada vez mais raras. A produção, venda e coleção tanto de produtos de baixo e médio padrão, como de peças de arte de alta qualidade encontram grandes dificuldades para ganhar uma dimensão considerável. A comunidade de artesãos sofreu perdas drásticas. Entre os poucos ainda ativos, Wen Qiangang é considerado um verdadeiro mestre na laca entalhada.

Na entrada de seu estúdio, encontramos um imponente biombo vermelho de quatro metros de altura mostrando galhos de cerejeira carregados de flores e magnólias serenas sob a árvore. Ao lado, uma profusão de exuberantes peônias, os caules cedendo ao peso das fartas pétalas. Mal dá para acreditar que todas essas belas flores, galhos robustos, botões graciosos e até os quatro ideogramas 玉堂富贵 (yù táng fù guì) foram entalhados detalhe a detalhe! Além da extraordinária beleza, a combinação de magnólia, flores de cerejeira e peônias simboliza prosperidade e riqueza, um motivo largamente apreciado pelo povo chinês. Hoje esse tema tradicional ganha vigor e vitalidade em um biombo de laca entalhada fabricado no século 21.

O ideograma 漆 é a imagem pictográfica da resina saindo da árvore após um corte em forma de 八 no tronco 木. Essa resina é a laca crua. Em contato com o ar, o líquido branco escurece e adquire uma consistência de goma. Quando usado como verniz, solidifica-se e cria uma superfície acetinada e brilhante. Por isso, a laca é conhecida como “pele oriental”. Os objetos laqueados são resistentes à corrosão e inibem o surgimento de microorganismos.  Hoje em dia, ainda se conservam peças da época dos Reinos Combatentes (475-221 a.C.), da dinastia Qin (221-206 a.C.) e da dinastia Han (206 a.C.-220 d.C.). Após mais de 2000 anos enterradas, elas não só permanecem intactas, como continuam chamando atenção por seus elaborados padrões decorativos.

A mais antiga peça laqueada já encontrada é uma grande tigela de laca vermelha, escavada no sítio arqueológico de Hemudu, com mais de 7000 anos. A partir da dinastia Han, com a preferência crescente pela porcelana, a produção de laca decaiu gradualmente. No século VII, essa arte foi introduzida no Japão, onde desenvolveu técnicas e estilos próprios. Na língua inglesa, os nomes “China” e “Japan” viraram sinônimos de porcelana e laca, respectivamente.

Nas dinastias Yuan (1211-1279), Ming (1368-1644) e Qing (1644-1912) a produção de laca viveu seu apogeu histórico, tanto na variedade palaciana, como na popular. Durante a dinastia Ming, as técnicas tiveram um amplo avanço, chegando a um total de 14 categorias e cerca de 400 variantes. No final da dinastia Qing, o extravio de peças de laca palaciana despertou interesse no mercado ocidental e, desde então, os objetos laqueados passaram gradualmente de utilitários a obras de arte.

O valor da laca reside não somente em sua longa história, mas também em sua elaborada técnica de produção. A árvore precisa crescer 10 anos antes de se extrair a resina e são necessárias 3000 árvores para obter um quilo de laca crua. Uma única peça laqueada consome, em média, 200 quilos. Por isso costuma-se dizer que é preciso “andar cem milhas e fazer mil cortes para conseguir meio quilo de laca”. Os objetos laqueados podem ser classificados conforme o processo de fabricação, formato, cor e origem. As variedades mais comuns são a laca dourada, a preenchida, a incrustada com madrepérola, ouro ou prata e a entalhada. São célebres as lacas de Fuzhou, Xiamen, Guangdong, Yangzhou, Jishan, Pingyao, Chengdu, Tunxi, Pequim e Nantou.

Na produção de laca entalhada, é necessário cobrir a superfície do objeto com 20 a 30 ou mesmo mais de cem demãos de laca vermelha e, em seguida, esculpir as figuras na capa de verniz. Para obter um efeito colorido, aplicam-se camadas de cores diferentes. Quando se atinge certa espessura, raspa-se a superfície até expor a cor desejada. Segundo o Registro de ornamentos pintados, “flores vermelhas, folhas verdes, galhos roxos, frutas amarelas, nuvem multicores e pedras pretas”são obtidos com essa técnica. Para ajustar a cor e o brilho é preciso adicionar óleo de tung, cinábrio, coral e outros ingredientes. O processo de produção inclui ainda a seleção de materiais, preparação de moldes, aplicação da laca, coloração, polimento e secagem. Cada etapa deve seguir normas rigorosas e qualquer erro pode inutilizar a peça.

A laca chinesa tem 7000 anos de história, desde suas origens no período Hemudu (5000–4500 a.C.)  até hoje. Tanto a laca antiga como a moderna primam pela aparência requintada, sendo sempre apreciadas por sua beleza e elegância. Quando jovem, Wen Qiangang tentou usar materiais baratos para baixar o custo ou simplificar os procedimentos para aumentar a produção, mas os resultados não eram satisfatórios. Aos 50 anos, finalmente percebeu que a beleza tradicional está exatamente na durabilidade do material e que a produção rápida e barata não funciona.

Em 2002, a Fábrica de Laca Entalhada que ficava no bairro de Xuanwumennei, em Pequim, foi removida sem deixar rastro, a não ser algumas informações de cadastro comercial.  Para o mestre Wen, que trabalhou ali a maior parte de sua vida, foi uma grande perda. Ele passou a produzir anualmente umas poucas peças de alto padrão, que são vendidas antes de entrar no mercado. Isso lhe trouxe mais confiança. Para ele, “a indústria de laca entalhada não está forte, mas está longe de ser enterrada”.

Depois de se aposentar, Wen Qiangang abriu seu próprio estúdio. Em 2014, o local completou 12 anos de funcionamento. Ali, o mestre septuagenário trabalha com o mesmo vigor de antes e já formou vários jovens interessados em laca entalhada, algo que o deixa muito feliz. Ele diz: “Largar o negócio depois de ganhar dinheiro é um tipo de vida, mas fazer algo para difundir uma arte quase desaparecida também é um tipo de vida. Quero passar a arte de laca entalhada para as gerações futuras”.