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por Sergio Maduro

 

Como quase toda criança pequena, eu mal começava a viagem de Ano-Novo e já irritava meus pais com a pergunta: “está chegando?” Era um ritual que repetíamos todos os anos, a fim de visitar parentes no interior (eu não era apegado aos parentes, só meu tio então me importava).

E é essa pergunta infantil que eu sinto ecoar em meus ouvidos, enquanto olho as estampas de um boi, um cavalo, um cachorro e um galo, impressas num calendário chinês diante dos meus olhos. O que fazem ali, perdidos em meio a datas e luas, aqueles animaizinhos?

Não viajávamos com frequência. Saíamos muito cedo e, depois de uma manhã inteira, chegávamos ao nosso destino. Mais do que contente por rever os parentes, eu ficava exultante por rever meu tio – nós nos adorávamos – e aliviado por, enfim, poder e matar a imensa saudade e a fome que sentia depois de viajar.

O que um calendário chinês tem a ver com isso tudo?

Com a repetição daquela rotina de Ano-Novo, que durou uns poucos anos até que meus parentes morressem, aprendi a controlar minha ansiedade de criança elegendo alguns marcos no caminho.

Eles me permitiam saber mais ou menos, sem depender de meus pais, em que ponto da viagem eu me encontrava; eram também uma maneira tosca de registrar o tempo e serenar minha ansiedade, enquanto não chegava a hora de estar com o tio querido.

Meu pequeno calendário interno media o tempo pelo começo da estrada, pelo posto de gasolina com um nome engraçado, pelo pedágio, por uma serra cheia de curvas e, finalmente, pela cidadezinha pequena, com um acanhado caminho de terra, que levava ao sítio de meu tio, sem luz elétrica e povoado de cachorros e galinhas.

Ali, desde os meus três anos de idade, eu fui livre e feliz. Não havia os perigos da cidade grande, meu tio me fazia todas as vontades e me levava pacientemente para andar a cavalo, tomar leite de vaca, brincar com os cachorros e dar milho às galinhas.

Invariavelmente, no último dia da minha visita, antes da partida, ele pegava-me no colo, levava-me até um calendário do ano seguinte pendurado na parede e, mesmo sabendo que eu não entenderia nada, corria o dedo pelos meses, explicando-me que, depois daqueles dias todos, lá no pé da página – os últimos dias do ano que estava nascendo – nós tornaríamos a nos ver. Mas, mesmo com um calendário, sempre foi difícil esperar.

Controle racional do tempo

Os fenômenos celestes têm grande importância para determinar o período de fertilidade da terra e o comportamento dos animais. Isso representa um papel preponderante na vida das pessoas, em especial dos agricultores, em regiões onde as estações do ano são bem marcadas e a temporada de frio, pouco propícia para plantar.

Assim nasceram os primeiros calendários. Solares (como o gregoriano, mais difundido no Ocidente), lunares (como o islâmico), ou uma combinação de ambos, os lunissolares (como o hebreu e o chinês), eles escondem uma racionalidade muito útil, sob uma enganadora aparência mística. Os inícios ou finais de ciclos importantes são marcados por rituais religiosos, festas e práticas agrícolas.

História de muitas luas

O mais antigo calendário de que se tem notícia, com mais de 5 mil anos, é o egípcio, que evoluiu para um sistema lunissolar, eficiente para prever as cheias do Nilo e as melhores épocas para o plantio.

As mesmas preocupações práticas parecem ter orientado a confecção do calendário tradicional chinês, comumente chamado 农历 nónglì, denominação que, não por acaso, significa “calendário agrícola”. Aliás, a palavra usada para mês e lua é a mesma, 月yuè, assim como a usada para dia e sol, 日rì. Baseado nos movimentos aparentes do sol e da lua, o calendário chinês também é lunissolar.

Desde 1912, a China começou a utilizar o calendário gregoriano na vida civil, mas seu uso generalizou-se após a fundação da República Popular em 1949.  Mas o calendário tradicional – concebido pelo Imperador Amarelo, 黄帝Huáng Dì, aproximadamente em 2600 a.C. – ainda rege as festividades e, para quem acredita, indica as “datas auspiciosas” para fechar grandes negócios e dar passos importantes na vida, como casar-se.

O calendário tradicional é uma contagem dos 12 ciclos lunares, entre o início da segunda lua nova após o solstício de inverno, até a segunda lua nova após o solstício do inverno seguinte. Esse dia – sempre entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro, pelo calendário gregoriano – é o início de um novo ciclo, ou, em termos mais festivos, o春节 chūnjié, literalmente “Festival da Primavera”, ou Ano-Novo chinês.

O ano normal tem 12 meses, cada qual com 29 ou 30 dias, totalizando 353 a 355 dias no ano, a depender da duração dos ciclos lunares. Sempre que há 13 luas novas em um mesmo ano tem-se um ano bissexto (闰年 rùnnián), e isso acontece a cada 32 ou 33 meses – são sete anos bissextos a cada 19 anos. Nos anos bissextos, um 13º Mês, chamado 闰月rùnyuè, é acrescentado aos meses regulares, e o ano passa a ter entre 383 e 385 dias, o que sincroniza o calendário agrícola com o ano solar de 365 dias.

O Ano do Galo iniciado em 28 de janeiro de 2017 vai encerrar-se no dia 15 de fevereiro de 2018. É um ano bissexto, e o mês a ser acrescentado começará na mudança para a lua nova de julho, no dia 23.

Zodíaco chinês e os cinco elementos

No Ocidente, a parte mais conhecida do calendário tradicional chinês é a associação dos anos com um zodíaco de 12 animais.

Segundo a lenda, Buda (outras das muitas variantes da história dizem que seria o imperador) teria convidado todos os animais para um encontro. Apenas 12 teriam atendido a seu pedido, na seguinte ordem: o rato, o boi, o tigre, o coelho, o dragão, a serpente, o cavalo, o carneiro, o macaco, o galo, o cachorro e o porco.

O boi se apressou em querer ser o primeiro, seguido pelo rato que, muito esperto, percebendo que cada passo do companheiro equivalia a vários seus, pediu uma carona em suas costas. Assim, quando se aproximavam do destino, o rato pulou do pescoço do boi, adiantou-se e foi o primeiro a chegar.

Por isso, quando Buda dedicou um ano a cada animal em agradecimento pela presença, o primeiro signo do primeiro ano foi o rato. Reza a tradição que cada ano, combinado a outros elementos, empresta suas características ao período e às pessoas daquele signo.

O folclore diz também que o ano do seu signo (本命年běnmìng nián) tende a não ser um ano auspicioso porque o animal correspondente pode ofender o Deus da Idade, 太岁Tai Sui, e causar má sorte. Para trazer então boa fortuna, os chineses costumam usar algo (meias, roupas íntimas, adornos etc.) na cor vermelha.

A tradição associa ainda a cada signo uma polaridade (yin/yang), além de cinco elementos naturais, ligados cada qual a um planeta: madeira (Júpiter), fogo (Marte), terra (Saturno), metal (Vênus) e água (Mercúrio). A cada um dos 12 animais corresponde um dos cinco elementos, perfazendo um ciclo de 60 anos, já que cada elemento passa por todos os animais, nas formas yin e yang (v. quadro).

Patrimônio da humanidade

A parte mais empírica do calendário chinês está dedicada aos ciclos da natureza. Cada uma das quatro estações está dividida em seis partes, totalizando 24 períodos solares. O detalhamento das observações astronômicas produziu uma cuidadosa subdivisão, segundo a qual a mudança de aproximadamente 15 graus na posição do sol (um节气jiéqì) dura cerca de 15 dias, com características muito próprias de clima e de comportamento de animais e de plantas.

Os 24 períodos refletem o começo das estações, os equinócios e solstícios, o despertar dos insetos, os períodos de maior luminosidade e limpidez, o começo e o final da granação, bem como o início, o ápice e o fim do calor ou do frio, da neve e das chuvas, a época do orvalho, das geadas e do degelo.

Em 30 de novembro de 2016, os 24 períodos solares do calendário chinês se transformaram em Patrimônio Cultural Imaterial da humanidade, um reconhecimento por moldarem a identidade cultural das comunidades e por constituírem exemplo de respeito à natureza.