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por Janaina Rossi Moreira

 

Cores, sons, movimentos, força e sincronia: as danças do dragão e do leão cativam qualquer audiência, mesmo nesta época meio blasée. Trata-se de shows dinâmicos e empolgantes, construídos e realizados única e exclusivamente a partir da habilidade humana, sem recursos eletrônicos ou digitais e totalmente “unplugged”. De cerimônia ritualística a prática folclórica e, finalmente, a modalidade esportiva internacional, a performance traz à vida dois dos mais importantes animais do imaginário chinês. O resultado é hipnótico, graças àquela magia insondável, exclusiva das pouquíssimas expressões artísticas que conseguem sobreviver à passagem dos séculos.

O povo do dragão

Quase onipresentes na civilização, os dragões surgem com destaque em culturas tão distantes entre si no tempo e no espaço como as da América Pré-Colombiana, da Europa, do Oriente Médio e do Leste Asiático. São figuras antiquíssimas também. Limitemo-nos ao caso da China e veremos que desde a pré-história da região esses seres dão as caras. Representados, em linhas gerais, como serpentes com cabeça de cavalo e dois chifres, os “protodragões” ainda não tinham asas, mas já sabiam voar. Acreditava-se que traziam chuvas para as plantações, e estavam fortemente associados à água: soprando seu hálito nebuloso, conferiam aos pântanos sua bruma característica; asseguravam o fluxo dos rios que abasteciam as vilas e povoados e faziam morada no fundo de mares e de grandes lagos.

Símbolo de força, bondade e mudança, a criatura viu sua reputação mudar bastante, principalmente com o advento do budismo. Os chineses antigos se consideravam e se autodenominavam “filhos do dragão”, deuses e outros imortais viajavam nas costas do bicho, enquanto alguns imperadores lendários preferiam fazê-lo em luxuosas carruagens puxadas por eles. Imperadores chineses reivindicavam uma ascendência ligada à celebridade reptiliana. Também era comum elogiar intelectuais eminentes dizendo-se que manejavam a pena “como o dragão maneja a cauda”, isto é, tinham habilidades superiores na escrita.

Leão, só que não

Logo após o dragão, o segundo animal divino mais importante a ocupar o posto de grande protetor e símbolo de nobreza e dignidade é o leão. Não existiam leões na China, mas seu papel na cultura do Extremo Oriente é dos mais relevantes. As representações do animal nesses países, no entanto, são bastante distantes do aspecto real do felino. O símbolo do leão poderoso e imponente deve ter sido introduzido apenas no primeiro século da era cristã, por budistas indianos – na Índia sim, existe uma subespécie, o leão indiano, também chamado leão asiático ou persa (Panthera leo persica). Ou seja, os chineses representavam a fera baseados sobretudo na imaginação. E é bastante provável que o leão chinês seja uma fusão entre o bicho real e uma figura mítica pré-existente. Protetora das colheitas e dos seres humanos contra os espíritos malignos, a divindade teria sido associada às figuras leoninas do budismo, que simbolizam a piedade e protegem templos e leis da religião.

Quase sempre em pares, esses leões que mais parecem cachorros são tão frequentes na arquitetura chinesa – à entrada de palácios, templos e túmulos – que até os povos ocidentais já estão acostumados a eles, esquecendo que se parecem bem pouco com um leão de verdade. No estatuário, geralmente o que se vê é um casal: à esquerda da fêmea, o macho costuma trazer uma esfera sob a pata dianteira direita que simboliza a unidade do império. Já a leoa tem um filhote sob a pata dianteira esquerda, que remete à saúde e à prosperidade da prole. As bolas de pedra que podem por vezes aparecer dentro das bocas dos leões representam pérolas de perfeição e pureza.

Kung fu Dragon

As duas criaturas mitológicas são figuras importantíssimas em festividades como o Ano-Novo Chinês. É por isso que as danças do leão (舞狮wǔ shī) e do dragão (舞龙wǔ lóng) não podem faltar nessas e em outras cerimônias e celebrações que marcam o início de um novo ciclo, como inaugurações de casas e estabelecimentos comerciais. Executada ao vivo para acompanhar o movimento dos bichos, uma música percussiva característica, alta e agressiva, também serviria para afugentar fantasmas e espíritos malignos. Eminentemente acrobáticas, o mais comum é que as danças festivas sejam realizadas por praticantes de kung fu (alunos e veteranos), constituindo hoje em dia um esporte, com calendário importante de competições internacionais.

No caso do dragão, o boneco que o representa é uma gigantesca marionete bastante flexível, que ganha vida graças a um grupo de dançarinos posicionados sob ela que a manipulam por meio de bastões. Até existem dragões pequenos, de apenas dois metros e acionados por duas pessoas, mas é mais comum vermos longos fantoches que medem entre 25 e 35 metros, podendo chegar a 70: quanto mais comprido o corpo do dragão, mais sorte trará. Acredita-se que o maior já construído seja o Sun Loong, um fantoche australiano cujo corpo mede nada menos que 100 metros. Feito de seda e papel machê e adornado com 90 mil espelhos cortados à mão, o Sun Loong hoje se encontra em exposição no Golden Dragon Museum, em Bendigo, na Austrália.

Há dragões de várias cores, e alguns podem trazer instalados na cabeça dispositivos que permitem ao bicho soltar fogo ou emitir luz. Os mais comuns costumam abrigar de dez a vinte dançarinos-manipuladores, um para cada bastão, e seus movimentos sinuosos evocam a origem aquática da criatura. A execução desses movimentos exige sincronia e entrosamento perfeitos, o menor erro pode arruinar a apresentação, pois deflagra uma reação em cadeia por todo o (longo) corpo da marionete, como explica Alexandre Collaro, da União Nacional da Dança do Leão e do Dragão (veja quadro): “Cada membro da equipe segue apenas a música e o colega da frente, e é seguido pela pessoa logo atrás dele. E assim por diante”. Os meneios da cabeça do fantoche têm de estar combinados harmônica e coerentemente com o corpo, que serpenteia, salta, se enrosca em espiral, executa mudanças bruscas de movimento… tudo isso marcado pelo som do tambor, que ajuda os participantes a combinar o que faz a cauda com o que a cabeça faz. Além da habilidade e do fôlego, há que se ter força: mesmo que os materiais hoje usados para sustentar a estrutura do adereço sejam mais leves e resistentes, uma cabeça de dragão cerimonial pode pesar quase 15 kg.

Danças de dragão, seja como forma de entretenimento seja com fins rituais, são registradas desde o período Han (202 a.C – 220 d.C), tanto em textos como em relevos gravados em pedra. De lá para cá, desenvolveram-se inúmeras formas de fazer o dragão dançar em festas, paradas, desfiles, shows, cerimônias etc. Foram criadas regras e padronizações para competições e divulgação, mas coexistem centenas de variações regionais na China e nas comunidades da diáspora.

Kung Fu Lion

O grau de complexidade da dança do leão não fica atrás. Diferentemente da do dragão, não temos aqui uma marionete, e sim uma fantasia, geralmente usada por dois artistas. A visão de ambos é muito limitada, sobretudo a do dançarino que veste as “patas” traseiras do animal: esse só enxerga o chão imediatamente abaixo de si e as pernas do parceiro. É de novo o mestre Alexandre quem explica: “Não dá pra dizer que existe uma parte mais difícil de desempenhar. O que muda é o tipo de habilidade [exigida por cada uma das partes da fantasia]. Quem fica na cauda precisa de mais força”. Afinal, a pessoa que está na parte da frente salta sobre as costas do companheiro de trás, equilibra-se em seus ombros, senta-se em sua cabeça, e “é preciso todo um preparo e uma técnica pra evitar lesões e manter os movimentos do animal coesos e bonitos”, continua Alexandre. Já quem fica na cabeça do leão conduz as acrobacias, por isso leveza e agilidade fazem muita diferença. Quem opera a parte dianteira consegue enxergar – mas não muito – o caminho à sua frente, e aciona as orelhas, a boca e os olhos do bicho. Os movimentos de cabeça, aliás, são o principal meio pelos quais as expressões do leão são manifestadas.

Há várias histórias acerca do surgimento dessa dança, e a associação da figura ao Ano-Novo pode estar numa delas. Segundo essa versão, a fantasia da fera teria sido criada como uma espécie de espantalho mágico, que protegia a lavoura de pragas e males. Assim, todos os anos na época da colheita usava-se a fantasia, e a besta protetora acabou sendo chamada de “leão do ano” (年狮nián shī).

Além das celebrações de Ano-Novo, porém, o leão costuma ser chamado a dançar em outras ocasiões especiais, como casamentos, inaugurações e homenagens a convidados ilustres. Ao entrar em uma residência ou estabelecimento comercial, o bicho lambe paredes, portas, janelas e pilares, deixando no espaço sua bênção e proteção. Ainda hoje é comum pendurar um maço de alface para que o leão o “engula”, e as acrobacias realizadas para alcançar a oferenda acabaram dando origem a uma competição entre várias escolas de kung fu pela preferência do público.

O espelho na testa da fantasia afasta as vibrações negativas, e por isso é proibido que os praticantes o toquem. Os olhos acendem em vermelho, para incutir medo e respeito. Como é de se esperar, os leões também têm cores diferentes, com a respectiva simbologia, e há pequenas diferenças em detalhes como boca e chifres. Entre os diversos estilos de dança do leão, os principais são o nortista e o sulista. O primeiro é de natureza mais acrobática e voltado ao entretenimento. Muitas vezes os bichos se equilibram em bolas, e também é comum que se apresentem em “famílias”, com pai, mãe e filhotes. Geralmente a cabeça desses leões é dourada, e a aparência geral está mais para a de um cão pequinês – e é desguedelhada, como um leão em “bad hair day”. A dança do sul é mais simbólica, as fantasias têm uma variedade de cores bem maior. É esse leão, de olhos grandes, que traz o espelho na testa e costuma possuir um chifre. Man Hong Kwok, também da UNDLD, diz que quem não conhece a figura costuma confundi-la com a do dragão.

É raro o leão e o dragão interagirem numa performance. As competições também são separadas para cada uma das danças. Quanto ao repertório, tanto é possível executar um circuito pré-definido como criar uma história ou uma coreografia relativamente original, com base nas diversas partituras musicais, movimentos codificados e mitos consolidados pela prática dessa arte.

A forte carga simbólica ancestral dos dois bichões, aliada à energia e habilidade impressionantes dos que os trazem à vida, dá pistas do porquê de essa arte tão longeva continuar a fazer tanto sucesso. Já a tal magia de que falei no início, como toda magia que se preze, não se explica nem se descreve, apenas acontece.

UNDLD

Os professores Man Hong Kwok, Gutemberg Lins e Alexandre Collaro, da União Nacional de Dança de Leão e Dragão, receberam a Instituto Confúcio na nova sede da escola no bairro paulistano da Liberdade, a ser inaugurada em breve. Especializada na vertente marcial da dança de leão e dragão – ou seja, na sua fusão com o kung fu, a UNDLD vem tentando unificar e padronizar a prática desse verdadeiro “esporte-arte” em território brasileiro, com o objetivo de inserir o nosso país no circuito de competições internacionais. Durante quase duas horas de conversa, ficamos conhecendo detalhes e curiosidades dessa manifestação tão complexa. Por exemplo: os praticantes da dança têm que saber operar todas as posições das duas figuras, dragão e leão, independentemente de virem a se especializar em alguma delas. E também precisam saber tocar os instrumentos, pois só assim é possível entender como se atinge a perfeita sincronia de movimentos e música. Tal sincronia constitui, inclusive, um dos critérios de avaliação em competições. Alexandre explica ainda que, na performance com até dois leões, estes seguem o tambor. Quando há três ou mais, é o movimento dos leões que comanda os tambores. Finalmente, ficamos sabendo que há entre os praticantes de kung fu toda uma ritualística para manipular e guardar os bonecos, por respeito e reverência a essa arte, a seus praticantes, ao simbolismo e à tradição que ela carrega e renova a cada apresentação.