Por Janaina Rossi Moreira

Das janelas às galerias, do folclore à arte contemporânea, os recortes de papel resistem e evoluem como uma das mais valiosas expressões do espírito chinês

Bienal Internacional de Arte de São Paulo, 2006. A tônica da 27ª edição do evento era a chamada “arte social”, e entre os destaques estava parte de uma monumental exibição com diversas figuras criadas em recortes de papel vermelho, de estilos e motivos dos mais variados. Cada recorte vinha acompanhado de uma ficha contendo as informações sobre o artesão que o criara.

Tratava-se do Long March Project: a Walking Visual Display, idealizado e conduzido pelo artista chinês Lu Jie. Unindo arte contemporânea, preservação cultural e engajamento social e político, a iniciativa contou com a participação de inúmeros artistas e voluntários dentro e fora da China, resultando em uma coleção de milhares de peças dessa verdadeira arte em papel.

Papel principal

A escolha do recorte de papel (剪纸 jiǎnzhǐ) como protagonista dessa obra grandiosa e multifacetada não foi à toa. A arte se encontra disseminada por todo o território chinês, como expressão de diversas etnias do país, e é uma das mais representativas da cultura tradicional e folclórica da China. Transmite, além da admirável habilidade de seus criadores, costumes, ideais estéticos, tradições e, sobretudo, a filosofia de vida de um povo. As diversas peças, padrões e estilos compõem um valioso inventário histórico e cultural.

Muitos podemos encarar os jiǎnzhǐ como uma decoração efêmera ou mero costume local associado a datas festivas, como a nossa prática de enviar cartões de Natal ou aniversário. No entanto, esse artesanato tem história, significado, complexidade e importância muito mais remotos e profundos.

O mais antigo recorte de papel de que se tem notícia data de 1.500 anos atrás. Entretanto, várias fontes apontam que, muito antes da invenção do papel por Cai Lun, no século 2º, a criação de figuras vazadas em superfícies flexíveis já viesse sendo praticada em materiais como seda, couro, placas finas de metais nobres e até folhas de plantas. O recorte também era – e ainda é – usado como molde para bordados e na decoração de paredes, lanternas, colunas, cortinas, toalhas, móveis, espelhos e, claro, portas e janelas – daí ser conhecido também como 窗花 chuānghuā, “flor de janela”.

No período Tang (618-907), os recortes de papel já haviam atingido a maturidade como forma de arte popular, e o apogeu veio nas dinastias Ming (1368–1644) e Qing (1644–1912). Como era de se esperar, a arte logo se espalhou pelo Leste Asiático.

Arte cotidiana

A popularização do papel impulsionou o desenvolvimento e a espantosa disseminação da prática, que acabou caindo no gosto e nas mãos da gente do campo e incorporando os temas mais caros à vida cotidiana dos chineses. Interessante observar que, seja nos palácios ou nos campos, dar vida a folhas de papel por meio de tesouras ou buris sempre foi uma atividade eminentemente feminina. Destreza, capricho e criatividade nos recortes chegaram mesmo a ser, em outros tempos, um critério para a escolha de uma noiva, assim como a habilidade com agulhas e linhas. Mulheres prendadas deviam se destacar como costureiras e escultoras de papel.

Das mãos das artesãs – e artesãos – do papel foram surgindo e se desenvolvendo representações intrincadas de lendas, fatos históricos, manifestações da natureza e, sobretudo, cenas de celebração da vida e desejos das comunidades dos criadores. Sendo assim, os recortes logo ganharam destaque como decoração de eventos marcantes e datas comemorativas, como a chegada da primavera, nascimentos, casamentos, aniversários e passagens de ano. Hoje é impossível caminhar por mais de 200 metros na rua de uma cidade como Pequim sem se defrontar com um chuānghuā decorando uma janela ou uma fachada de loja. Tampouco é provável que na porta da casa do amigo chinês não esteja pendurado o ideograma 福 (sorte) recortado em vermelho. Nas costas e nas mãos de estudantes adolescentes também vemos com frequência os belos e singelos jiǎnzhǐ, ornamentando suas mochilas, fichários e cadernos.

Técnicas e escolas

Para compor as figuras de papel empregam-se duas técnicas, basicamente. Uma utiliza tesouras, e é a mão que segura o papel que realiza os movimentos, com a tesoura quase imóvel. Depois de recortado, o desenho é refinado com uma tesoura mais afiada ou um estilete. O papel geralmente é dobrado antes de receber os cortes para criar imagens simétricas. Pode-se recortar ao mesmo tempo uma ou mais folhas, desde que o conjunto não fique espesso demais.

A outra técnica utiliza facas ou estiletes e permite criar vários jiǎnzhǐ iguais de uma vez, empilhando-se as folhas e formando maços. O instrumento de corte geralmente é segurado na vertical, e cada recorte também é “burilado” na finalização. As figuras, depois de prontas, podem ser passadas a ferro, para que o recorte fique plano e os detalhes não rasguem nem dobrem. Por fim, há artistas especialmente habilidosos que recortam a figura à mão livre, sem sequer dobrar o papel.

Quanto às cores, o mais comum é encontrar os recortes no vermelho tradicional, tom por excelência da sorte e da prosperidade. Mas é possível encontrar obras coloridas. Os temas e estilos variam muito conforme a etnia, a época e o propósito de criação dos recortes. Entre os temas podemos encontrar os ideogramas e símbolos votivos, referências mitológicas, retratos de anônimos e de personalidades, histórias e personagens da ópera chinesa, cenas do cotidiano rural, entre outros. Os estilos estão associados a “escolas”, grosso modo divididas entre a escola do Norte – representada sobretudo pelas províncias de Shaanxi, Shanxi, Gansu, Shandong, Henan e Hebei – e a escola do Sul, que abarca as províncias de Jiangsu, Anhui, Zhejiang, Hubei, Guandong, Sichuan e Guizhou. A primeira é caracterizada por vigor e espontaneidade; a segunda é mais elegante e delicada. Há também quem identifique nos estilos dos recortes produzidos nas províncias de Jiangsu e Zhejiang uma escola separada, batizada Jiang-Zhe.

Futuro da tradição

Iniciativas como a de Lu Jie vêm tentando revitalizar essa arte e dar a ela a visibilidade merecida, além de provocar reflexões. Como assinala a professora e crítica de arte britânica Claire Bishop, o Long March Project é uma obra de resistência “na forma de um censo e de um arquivo de arte tradicional que, todavia, revela o impacto da modernidade e da pós-modernidade”. Isso é (re)pensar o presente a partir da tradição. Em 2009, três anos após a exposição do projeto de Lu Jie em São Paulo, os jiǎnzhǐ foram incluídos na lista de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco.

Mas engana-se quem pensa que o recorte de papel seja apenas uma estrela na imensa constelação de admiráveis criações do espírito chinês antigo. Paralelamente, essa forma popular vem sendo retomada e desenvolvida por artistas contemporâneos como um ramo de arte próprio e atual. Exemplos de criadores que seguiram esse filão: Qiao Xiaoguang, criador de City Windows, painel permanente no Aeroporto internacional de Chicago; Leah Wong, com inventivas combinações de pintura, caligrafia e jiǎnzhǐ; Bovey Lee, autora de impressionantes e belíssimos recortes em papel de arroz; e Song Xin, que ultimamente se dedica a usar páginas de revistas para criar obras que discutem questões do mundo atual. O valor estético dos trabalhos de todos os artistas é inegável – coisa cada vez mais rara em termos de arte contemporânea.

Chineses inventaram o papel, que associamos quase que invariavelmente à escrita. Mas também encontraram um jeito de usar a invenção para registrar, com alguns talhos certeiros, quem são, o que pensam, como pensam, o que desejam e como enxergam a vida. Talvez o primeiro a dizer que “uma imagem vale mais que mil palavras” estivesse olhando para um simples pedaço de papel vermelho recortado.

Para todas as ocasiões

Alguns dos mais famosos ideogramas e motivos auspiciosos representados nos jiǎnzhǐ:

(sorte, felicidade): costuma ser afixado de cabeça para baixo nas portas de residências e estabelecimentos comerciais. O motivo disso é que a pronúncia de “virar de cabeça para baixo” (dǎo) é quase a mesma de “chegar” (dào). Com esse trocadilho, passa-se a mensagem “a felicidade chegou”. Na arte dos recortes, é frequentemente combinado ou representado por figuras como o morcego, o crisântemo, a peônia, o qilin, folhas e flores de lótus, entre outras. É campeão de audiência no Ano-Novo Chinês por seu sentido amplo.

(dupla felicidade): costuma ser oferecido aos noivos e recém-casados e pendurados em portas e janelas. Em vários padrões, a ideia está representada pelas figuras isoladas ou combinadas de lírios, lótus, melões, caquis, pegas e periquitos, tanto por questões de simbologia quanto de similaridade fonética, celebrando a união e desejando prole extensa e saudável.

寿 shòu (vida longa): o caractere desejando longevidade é o arroz de festa dos aniversários. Figuras comumente associadas a ele são os pêssegos, símbolo por excelência da vida longa, além de pinheiros e do grou-da-manchúria, ave que servia de montaria para os imortais.

(prosperidade): ao longo do tempo, seu sentido acabou ficando mais ligado ao sucesso financeiro, isso porque a palavra em si significa “salário do oficial”, daí a associação com prestígio e riqueza. Vários animais, como a garça e o cervo, são escolhidos como símbolo por terem pronúncia igual ou semelhante a expressões relacionadas ao progresso na carreira.

 

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