Por Sergio Maduro

Era uma vez um homem que domesticou um inseto e fez o bicho trabalhar para ele por 5 mil anos. Fim.

Essa não é uma fábula, é a história de uma atividade muito antiga e rentável que nasceu na China. O inseto em questão é o bicho-da-seda, e a atividade é a sericicultura. Técnicas chinesas de tecelagem da seda estão listadas há anos como Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco. O país possui até um Museu Nacional da Seda, na cidade de Hangzhou, com a missão de guardar coleções do tecido, abrigar exposições, proteger técnicas têxteis e divulgar a sericicultura.

Segredo bem guardado

Os chineses domesticaram o animal a partir da variedade selvagem Bombyx mandarina. Cruzamentos sucessivos realizados por milênios resultaram na Bombyx mori, o bicho-da-seda tal como o conhecemos hoje. Diz a lenda que uma concubina do Imperador Amarelo foi quem deu início à sericicultura, ao perceber que um casulo do inseto caiu em seu chá e se desmanchou num delicado e longo fio.

Evidências arqueológicas e genéticas mostram que o longo processo de domesticação transformou os insetos em animais de cativeiro,incapazes de viver em condições selvagens.Por milênios, as lagartas foram selecionadas conforme critérios que privilegiaram genes para a produção da seda. Enclausuradas em ambientes controlados, longe de doenças e predadores e sem ter que lutar por comida, perderam muito da genética original. As características ligadas a casulos maiores, glândulas secretoras potentes e altas taxas de crescimento e reprodução foram as que prevaleceram, por proporcionarem melhores resultados econômicos. O reflexo são operárias pesadonas, boas tecedeiras, mas com habilidades sofríveis para voar ou se defender. Assim, não podem mais se reproduzir em liberdade — a cópula e a postura dos ovos dos indivíduos selvagens se dão em voo, capacidade que a espécie em cativeiro perdeu.

Por muito tempo, os chineses guardaram o segredo da atividade a sete chaves. Na Antiguidade, consideravam crime divulgar as técnicas de manejo, bem como transportar a larva ou seus ovos para fora do país. Mesmo assim, os processos de fabricação da seda chinesa acabaram vazando e, agora, entre os grandes produtores mundiais temos, além da China, a Índia, o Japão e o próprio Brasil. A produção brasileira está concentrada no Paraná, que responde por mais de 80% da seda tecida por aqui. A Universidade Estadual de Maringá, no norte do estado, mantém um banco de germoplasma de bicho-da-seda para melhoramento genético e seleção de raças mais produtivas e resistentes aos inseticidas usados em culturas vizinhas à criação. A universidade vem trabalhando, ainda, na pesquisa de produção de casulos naturalmente coloridos por meio da alimentação das lagartas com corante, o que dispensaria o tingimento posterior dos fios.

 

Exército de tecelões

Da eclosão dos ovos até o final da tecedura do casulo para fins comerciais, o ciclo dura cerca de 25 dias. A espécie Bombyx mori é a única milenarmente domesticada, responsável pela maior parte da produção. Mas existem dezenas e dezenas de espécies selvagens capazes de produzir variados fios de seda — alguns mais, outros menos resistentes —, com colorações diversas e tipos distintos de casulo. A maioria ainda é subaproveitada, por falta de pesquisas.

Na Índia, as mariposas da espécie Antheraea, todavia, já produzem uma significativa quantidade de seda tussah para o mercado. A Antheraea está presente na Austrália, no sudeste da Ásia e na América. Na China, outra espécie de bicho-da-seda produz um casulo com fios de tons esverdeados e mais resistentes. Aliás, trata-se de uma exceção,porque os casulos das raças chinesas são predominantemente brancos e arredondados,enquanto os das raças indianas possuem tons mais pardos.

Ciclo de vida

Diz um provérbio: “Com tempo e paciência,a folha da amoreira se torna um vestido de seda”. Esse dito é um retrato das etapas da sericicultura e da abnegação dos sericicultores.

Uma vez eclodidos os ovos, as pequenas lagartas são transportadas para enormes bandejas,à sombra de barracões arejados, cobertas de seu alimento preferido: folhas de amoreira picadas. Nascem frágeis, mas crescem rápido. Quanto melhor a qualidade das folhas, mais saudáveis são as lagartas e melhores os fios que produzirão. Elas comem, em média, cinco vezes ao dia. Não é bom relaxar no cardápio: bichos-da-seda alimentados com alface, por exemplo, dão origem a um produto de baixa qualidade.

Em poucas semanas, as lagartas estão prestes a procurar um lugar alto e abrigado para construir seu casulo e passar ao estágio de pupa ou crisálida, que é um embrião aguardando a metamorfose para a fase final: a mariposa. Nesse momento, o sericicultor disponibiliza estruturas acima das bandejas de alimentação, onde as lagartas, já muito mais encorpadas, sobem para tecer o casulo. A confecção, que leva 72 horas, é feita com uma substância filamentosa produzida nas mandíbulas e imediatamente engomada por secreções de glândulas especiais, de modo que os fios endurecem logo que entram em contato como ar. Depois, a lagarta secreta outra substância, que mantém os filamentos unidos. Cada fio pode medir 1 km ou mais.

Se o ciclo continuasse normalmente, uma vez construído o casulo, a lagarta nele abrigada aguardaria por volta de dez dias para se transformar em mariposa. É aí que o processo é interrompido, pois a eclosão destruiria o fio.O sericicultor retira os casulos e cozinha-os em água. Algumas técnicas utilizam um jato de vapor ou de ar quente, mas o resultado é o mesmo: a crisálida morre, e o calor amolece a goma que une os filamentos de seda, permitindo que os fios do casulo se soltem, suas pontas apareçam e eles possam ser separados sem maiores danos.