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Por Sérgio Maduro

Em uma planície da província de Zhejiang, no sudeste da China, de longe se veem as imensas lagoas pontilhadas de flutuadores e homens inspecionando seus arredores. Eles verificam se há, no ambiente, algum problema que possa prejudicar as grandes estrelas daquele local, que se encontram silenciosamente mergulhadas, gestando preciosidades.

Nessas fazendas aquáticas, são criados animais um tanto tímidos e fechados. Alimentam-se de pequenos organismos, enquanto filtram a água. Trata-se, na verdade, de moluscos, que estão ali para uma finalidade mais nobre que sua aparência de beleza duvidosa pode sugerir: dar à luz as pérolas produzidas no local.

Algumas dessas fazendas se transformaram em pontos turísticos na China. Em excursões de um dia, é possível presenciar viajantes alegres e ruidosos, contrastando como sossego ostráceo. Os mais ansiosos podem entrar em pequenas canoas, rumar para o meio do lago, recolher in loco o seu molusco, abri-lo e escolher sua pérola.

Muitos dos mexilhões de água doce fazem seu trabalho silencioso em lagos artificiais de 2 ou 3 metros de profundidade, durante um período que pode chegar a 5 anos, geralmente. Até que alguém — um funcionário treinado da fazenda de pérolas ou um turista afoito — termina o ciclo. Sua “musculatura” é suficiente para produzir uma gema cobiçada, mas não para resistir a quem queira tirá-la de dentro dele.

SEMEANDO PÉROLAS

Maior produtora de pérolas do planeta, a China é um país com bons recursos hídricos. Nem tudo está livre de poluição ou uniformemente distribuído, mas formar canais, lagoas e lagos não é exatamente difícil em algumas regiões do país, especialmente nas áreas antigamente destinadas à produção de arroz. Em muitas delas, a perlicultura —cultura racional de pérolas — substituiu a primitiva rizicultura, por ser mais lucrativa. Acompanhando a transformação do próprio país, muitas vezes surgiu nas proximidades desses novos centros de produção de pérolas uma intensa atividade industrial ligada à joalheria e ao artesanato. É de lugares assim que depende, na outra ponta do consumo, o movimento da ruidosa Torre Pérola do Oriente, em Xangai. Lá se pode encontrar uma imensidão de novidades no mercado de pérolas, com preços que variam de acessíveis a estratosféricos. Os valores oscilam de acordo com o brilho, o tamanho, a forma, a textura, a durabilidade, a cor e a demanda do mercado. Algumas dessas variáveis estão diretamente ligadas aos raros minerais da água onde o molusco esteve mergulhado durante sua paciente jornada. Os custos de produção, que vinham subindo nos últimos anos devido aos salários mais altos, têm levado os produtores a substituir os operários por máquinas que separam as pérolas conforme o brilho, o formato e a cor. Com o aperfeiçoamento das técnicas de produção em massa, já é possível encontrar pérolas chinesas mais baratas e de boa qualidade em todo o mundo.

Assim, soberana no milionário mercado mundial de pérolas de água doce, a China é responsável por mais de 90% da produção. Cuidados ambientais e o foco na qualidade das peças estão fazendo com que essa produção agregue valor, antes de se expandir ainda mais.

CADA MOLUSCO NO SEU GALHO

Existem muitas espécies de moluscos aptos a produzir essas preciosidades em culturas com interferência humana, mas deve-se respeitar a particularidade de cada pérola para produzi-la. A mais famosa, pela perfeição de suas gemas, é a akoya.

As técnicas de produção variam conforme o tipo de molusco e de pérola que se deseja. Dependendo do caso, uma mesma concha pode comportar até 25 enxertos em cada lado e gerar até 50 pérolas. Isso não acontece normalmente no método tradicional, em que cada concha dá origem a apenas uma conta. O mesmo molusco pode também produzir diferentes cores de pérolas naturais e, conforme a situação, ser reutilizado após a extração de uma safra.

NOVO NEGÓCIO MILENAR

A pérola é conhecida na China há cerca de 4mil anos. A descoberta foi, até certo ponto, natural, pois desde cedo os chineses se voltaram para o mar em busca de alimento. Como as pérolas se tornaram parte importante de sua cultura, eles acabaram desenvolvendo técnicas de cultivo, por volta do século 13.

Rico em água doce e com grande extensão litorânea, o país reúne condições ambientais e diversidade de biomas com fontes abundantes de alimentação natural, além de boa situação climática e geológica para criar moluscos. Por tudo isso é, desde os anos 1980, não só o maior produtor como o maior exportador.

O posto foi alcançado graças também às técnicas implementadas e aos avanços tecnológicos, por vezes unindo produtores de pérolas a pesquisadores de universidades. Paralelamente, houve o decréscimo da produção em outros países. Um exemplo disso é a poluição do Lago Biwa, no Japão, que fez a produção de pérolas no país diminuir muito. A China então, como vem fazendo em várias áreas, ocupou esse espaço em volume e qualidade de produção, a ponto de suas pérolas, perfeitas nas formas e nas cores, rivalizarem hoje com as akoya japonesas.

RioPerolas_03Um dos segredos dos chineses foi o aperfeiçoamento do chamado “processo de nucleação”, por meio do qual se insere um corpo estranho — como uma madrepérola pequena ou um pedaço de tecido — na concha do molusco. Para se proteger do intruso, o bicho secreta substâncias como o nácar e, ao final, forma-se uma pérola. O domínio da técnica de nucleação levou a mais pérolas no mercado, maiores e mais redondas, a um custo mais baixo.

As contas não utilizadas em joias e bijuterias são transformadas em pó e usadas em remédios e cosméticos. Sim, a obsessão pela pele jovem e perfeita, no Ocidente, e pela pele nacarada, no Oriente, faz do pó de pérolas um sucesso de vendas. A medicina chinesa não desconhece suas supostas propriedades como auxiliar na beleza. Diz-se que também funciona como ansiolítico e cicatrizante. Nada que a medicina ocidental tenha comprovado do lado de cá. Do lado de lá, tampouco há muita coisa além de histórias sobre alguma imperatriz que teria se beneficiado do produto em tempos imemoriais.

ECOLOGIA DE CONCHINHA

Se, por um lado, foram os problemas ecológicos que levaram o Japão a perder seu status de grande produtor mundial de pérolas akoya, por outro, essa preocupação assusta os produtores até hoje. Ainda mais se considerarmos que as ostras marinhas são mais sensíveis à poluição ambiental,que afeta diretamente a sua biologia.

No presente, a China já produz moluscos para cultura em incubadoras, reduzindo o impacto sobre o ambiente. Além do mais, focando boa parte da produção nas pérolas de água doce, os custos são mais controlados e minimizados. As ostras marinhas podem produzir apenas uma ou duas pérolas cultivadas por vez. Só mexilhões de água doce permitem aquelas safras de até 50 unidades. A produção de pérolas exige água limpa e combate a atividades potencialmente poluidoras circundantes, como a agricultura, a fim de evitar a contaminação do plantel com fungos ou venenos, por exemplo. Assim, a gestão ambiental, como controle de metais pesados, de antibióticos e de outros elementos poluentes, vem se impondo no gigante asiático. Do contrário, os produtores seriam obrigados a abrir novas frentes em outros países, como já aconteceu na própria China em relação ao Japão. Em outras palavras, os moluscos perlíferos são um importante indicador biológico de desequilíbrio ambiental.

OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLA

A pérola é o resultado de camadas de nácar (ou madrepérola) — substancia secretada pelo molusco — acumuladas sobre um corpo estranho no interior da concha. Uma pérola grande pode levar até 5 anos para ser formada. Na natureza, é algo raro, pois é preciso abrir milhares de moluscos para encontrar uma única pérola natural.

Nas culturas com interferência humana, porém, esse processo é controlado e provocado em um molusco vivo, selecionado por pesquisa genética. O animal é manuseado com uma técnica que não o mata. As camadas de nácar depositadas sobre o corpo intruso determinam a “luminosidade”, um dos parâmetros de qualidade da pérola. As com formato esférico perfeito são aquelas em que o elemento invasor foi total e uniformemente recoberto.

A PÉROLA NA CULTURA CHINESA

A pérola é um poderoso símbolo na cultura chinesa —como em muitas outras culturas. Basta ver nos casamentos,quando adquirem diversos significados. Entre nós, as Bodas de Pérola marcam os 30anos de união de um casal. Na China, imagens de animais com uma pérola na boca remetem à perfeição e à energia espiritual. Em algumas representações artísticas, como a tradicional Dança do Dragão, a esfera que o animal mítico persegue é uma pérola, representando sua busca por sabedoria e iluminação. Comparada à Lua por sua forma redonda e brilhante, a pérola é sinal de pureza. Imperadores e outros poderosos podiam preferir travesseiros recheados de pérolas para encontrar o conforto compatível com o seu poder durante a noite.

Por fim, o Rio das Pérolas tem fixada no topônimo a importância da gema; é o terceiro rio mais longo da China e atravessa 6 província sem seus quase 2,5 mil km de extensão.