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Por André Ribeiro

Quem desembarcasse de um navio em Xangai na década de 1920 encontraria, possivelmente com alguma surpresa, uma cidade que lembrava, em muitos aspectos, as capitais europeias e até mesmo o skyline de Nova York. Uma caminhada pelo Bund, a fervilhante avenida à beira-rio onde atracavam os barcos, faria redobrar o espanto pelo afluxo de pedestres chineses e europeus. E talvez o viajante desconfiasse ter desembarcado noutro porto por engano. Mas os idiomas estrangeiros misturados ao dialeto xangainês e ao mandarim confirmariam suas expectativas de ter pisado na “Paris do Oriente”.

Pelo Tratado de Nanquim, firmado no fim da primeira Guerra do Ópio (1839-1842), a cidade, outrora uma vila portuária, foi cedida à coroa britânica como território de livre comércio. Durante os anos seguintes, foram estabelecidas outras colônias mercantis, ou “concessões”, por franceses, americanos e alemães.

Palco de disputas comerciais e políticas, a metrópole chinesa foi também polo cultural de música, cinema, literatura e cartoons. Entre as décadas de 1920 e 1940, a cidade viveu uma verdadeira revolução cultural que, espelhando o estilo de vida cosmopolita da sociedade local, produziu uma quantidade expressiva de artistas, entre compositores clássicos e populares, letristas, atores, instrumentistas, cantores, regentes e orquestras, cujos trabalhos percorreram a China e o ultramar por meio das gravadoras e do cinema.

Pai da música pop chinesa

Em um ambiente de constante efervescência cultural, uma personagema marcou época: Li Jinhui (1891-1967). Conhecido como “pai da música pop chinesa”, foi mentor de toda uma geração de novos artistas ao criar e difundir um estilo musical baseado na fusão entre o jazz americano e a música folclórica chinesa.

Nascido numa família bem estabelecida, Li Jinhui tinha uma personalidade ousada na afirmação de suas opiniões políticas. Participou do “Novo Movimento Cultural”, surgido nos círculos literários da Universidade de Pequim após a Revolução de 1911. Dentre as pautas, defendia-se a necessidade de criação de músicas que acompanhassem o processo de modernização nacional. Li Jinhui foi quem levantou essa bandeira e, ao longo de toda a vida, buscou um equilíbrio na aproximação da música folclórica com as músicas ocidentais. Na década de 1920, criou a trupe Ming Yue (Lua Brilhante) que, em suas palavras, levantava “a bandeira da ‘música para as pessoas comuns’, como uma lua brilhando sobre a terra para ser apreciada”. Com isso, o artista mudava radicalmente o panorama da música chinesa.

Em turnês pela Ásia com seu grupo de cantoras e bailarinas, Li Jinhui conquistava o apreço de todos, angariando recursos e construindo sua fama. As turnês também serviram para descobrir novos talentos, em concursos de rádio organizados ou financiados por ele mesmo, por onde passava. Homem de formação tradicional, soube olhar para as culturas estrangeiras e delas extrair o que havia de melhor para vivificar o novo estilo musical que tinha em mente, ao qual denominou 时代曲 Shídàiqū, literalmente, “canções da época”.

Shidaiqu e o jazz

As músicas compostas no estilo Shidaiqu combinam a atmosfera nostálgica da música folclórica e a descoberta de ritmos influenciados pelo foxtrote americano, pelo jazz e pelo blues. Mas é sobretudo no aspecto social que o estilo se destaca, em contraste à cultura tradicional. A concepção dos espetáculos costumava atender aos gostos de uma época que combinava a afirmação da cultura feminina, a extravagância dos comerciantes afluentes e as novas relações sociais. As canções, muitas vezes, faziam referência a acontecimentos históricos, como a invasão japonesa, e à miséria que se espalhava pela cidade; mas também celebravam o encontro dos casais, a inocência das paixões, os amores conquistados e perdidos nas noites de Xangai.

Nascem as divas

Zhou Xuan

Em meio ao burburinho, sete cantoras definiram os rumos desse novo estilo de vida. Originárias de partes diferentes da China, encontraram-se em Xangai entre as décadas de 1930 e 1940. Subiram nos mesmos palcos, cantaram para as mesmas plateias, consagraram-se em concursos de rádio e atuaram no cinema florescente. Juntas, deram voz à memória afetiva de uma época.

Apreciar suas músicas, seus papéis e destinos nos faz enxergá-las (e ouvi-las) como protagonistas de uma única biografia, em que cada artista encarna os anseios daquela sociedade cosmopolita. Entre a inocência e a sensualidade, a paixão e a fragilidade, essas cantoras representavam o romantismo arraigado em artistas jovens e sonhadores, como Li Jinhui, que tanto buscavam a renovação de suas próprias histórias. Se houvesse algum clássico da literatura dedicado a traduzir esse período, a obra, com certeza, contaria a história dessas mulheres e da Xangai que elas cantavam como uma fantasia cheia de ingenuidades e esperanças.

Por terem subido aos palcos ainda muito meninas, apresentando-se como cantoras, bailarinas e atrizes-mirins diante do grande público, fica claro que ocupavam uma posição única. Estavam nas telas e no som dos gramofones, alimentados pelos vinis de 78 rotações, porém, prestigiá-las ao vivo era, com certeza, uma experiência insubstituível. Não se tratava de divas menores, como diziam alguns, mas dos símbolos vivos de uma geração sonhadora, numa época de acirradas disputas e tensões mundiais.

Entrelaçadas, sete imagens percorrem suas biografias artísticas: a mulher madura, independente, apaixonada, polêmica, sedutora, perspicaz e compassiva. Gong Qiuxia, a mais velha dessa geração, encarnou – no cinema e na vida – o papel de irmã maior, responsável, mãe de família. Zhou Xuan era a órfã sofrida que soube expressar toda a feminilidade e a graça da alma chinesa. Bai Hong era a garotinha de Pequim, casada aos 17 anos e mãe de quatro filhos que, conseguiu conciliar a vida familiar e a carreira profissional. Li Xianglan, nascida de família japonesa no nordeste da China, tornou-se o símbolo controverso de uma época de conflitos. Bai Guang, cuja aspiração era ser apenas uma abelhinha, voando no feixe de luz do projetor, acabou se tornando o protótipo da femme fatale – uma espécie de Marlene Dietrich chinesa. Havia também toda a paixão de Wu Yingyin pelo rádio, cantora autodidata que magnetizou o público até os 80 anos de idade. Por fim, a candura e a generosidade de Yao Lee, constantemente homenageada pela simplicidade e persistência com que manteve um repertório com mais de quatrocentas canções gravadas.

Suas biografias individuais são notáveis e frequentemente idealistas. Não poderia ser diferente, pois se projetaram muito cedo numa época de grande agitação social. Se tiveram tristezas marcadas na alma, também souberam transformá-las em vida.

Gong Qiuxia (1916-2004)

Nascida em uma família aristocrática da província de Jiangsu, manifestou cedo a vocação para as artes cênicas e o canto. Suas habilidades também não passaram despercebidas para os cineastas, que logo a projetaram nas telas.

Por muito tempo, foi a principal referência dos novos talentos femininos. Aos 14 anos, já havia dado grandes passos em sua formação artística. Passou cinco anos viajando pelo sudoeste da China com a trupe “Flores de Ameixeira”, o que possibilitou a formação de suas primeiras vivências. Em Xangai, envolveu-se com o cinema nascente, construindo uma sólida carreira como atriz, durante a qual atuou em mais de 100 produções entre as décadas de 1930 e 1980. Sua participação no filme As quatro irmãs, lhe valeu o título de “Grande Irmã”, depois do qual passou a interpretar papéis de mulheres maduras e mães de família.

Zhou Xuan (1920-1957)

De certo modo, a história do cinema chinês poderia ser resumida na vida e na presença de Zhou Xuan, sem dúvida alguma, a mais popular das divas e ícone de todas as gerações. Nascida nos arredores de Changzhou, na província de Jiangsu, foi vendida, aos três anos de idade, por um tio viciado em ópio, a uma família de Jintan que depois a repassou a outra família, de Xangai.

Zhou Xuan passou a vida inteira à procura dos pais biológicos, mas nunca os encontrou. Após um casamento frustrado e dois filhos, cada qual de um pai diferente, faleceu, aos 37 anos, de meningite, depois de ficar internada por causa de uma reincidência de esgotamento nervoso. Suas origens só foram descobertas muitos anos após sua morte. Chamava-se Su Pu.

Embora marcada por um grande sofrimento, soube representar toda a graciosidade da alma poética de seu povo ao interpretar Xiao Hong, personagem de um dos maiores clássicos do cinema chinês: Anjos da rua, do aclamado cineasta Yuan Muzhi. Entre as canções desse filme, tornaram-se clássicas com a sua interpretação: Canção das quatro estações e Canção da menina andarilha. O cinema a consagrou como “a voz de ouro”, um apelido carinhoso pela facilidade com que cantava nos registros mais altos.

Bai Hong (1920-1992)

Seu talento foi descoberto por Li Jinhui, em passagem por Pequim durante uma de suas turnês. Ele não perdeu a chance de tê-la na trupe “Lua Brilhante”, em que ela conquistou rapidamente a fama, ganhando, em 1934, em Xangai, o concurso de canto que consagrou o nome Bai Hong.

Casou-se cedo, com o compositor Li Jinguang – ela com 17, ele com 30 anos –, com quem teve quatro filhos. Além de criar os filhos, sua carreira foi intensa, tanto na trupe como no cinema, chegando a protagonizar dezenas de filmes. Ficou conhecida pela versatilidade, alternando suas interpretações entre as canções folclóricas, o foxtrote e o jazz americano.

Li Xianglan (1920-2014)

Nascida de pais japoneses na Manchúria (nordeste da China) ocupada, na adolescência ganhou de um amigo da família o nome chinês com o qual ficaria conhecida. Aprendeu canto lírico bastante jovem, educada na melhor tradição do bel canto da escola russa. Aos 18 anos foi cooptada pelas autoridades de propaganda japonesas e apresentada como cantora chinesa. Suas canções alcançavam com facilidade o grande público e ela também atuou em vários filmes marcados pela alusão ao império japonês. Sua carreira, no entanto, foi bruscamente interrompida com o fim da II Guerra Mundial.

Após a guerra, começou uma nova carreira no Japão com seu nome original, Yoshiko Yamaguchi. Voltou à fama durante os anos 1950 ao participar dos filmes de Akira Kurosawa. Chegou a atuar em Hollywood e na Broadway, sob o nome Shirley Yamaguchi.

Aos 54 anos, foi eleita para a Câmara Alta do parlamento japonês, onde cumpriu três mandatos em 18 anos. De 1995 a 1999, foi vice-presidente do Fundo para as Mulheres Asiáticas e uma das primeiras personalidades japonesas a se engajar no movimento de reparação às vítimas de abuso e escravismo sexual durante a ocupação do território chinês (1931-1945).

Bai Guang (1921-1999)

Aos 12 anos de idade já integrava a Companhia Teatral de Beiping, depois, formou-se em música pela Universidade Feminina Cristã de Tóquio. Iniciou a carreira no cinema em 1943, atuando em papéis sensuais, comparados aos de Marlene Dietrich. Com sua voz grave e penetrante, consagrou-se com título “rainha da voz grave”, e alguns dos sucessos que interpretou são cantados ainda hoje, como Noites de outono, Sem você, O pretendente, Velhos sonhos, e Esperando por você.

Retirou-se do mundo artístico em 1979 para ressurgir subitamente em 1985, quando revelou ao público que, naqueles anos, levava uma vida reclusa na Malásia com um marido 20 anos mais novo. Embora frequentemente convidada por artistas para participar de shows e eventos, escolheu passar seus últimos anos com uma vida tranquila, longe dos holofotes.

 

 Wu Yingyin (1922-2009)

Cantora autodidata, começou no rádio aos 14 anos, adotando um pseudônimo para contornar a proibição paterna. Impedida pelos pais de estudar música – eles desejavam que se formasse em medicina –, trabalhava como professora de inglês e ia participar de programas de rádio às escondidas. Foi construindo a si mesma e a própria voz, a ponto de seu pai, sem saber, tornar-se um grande fã da nova cantora que despontava. Só descobriu que se tratava de sua filha quando esta já tinha 26 anos.

Wu Yingyin seguiu o mesmo itinerário de suas contemporâneas, cantando nas boates de Xangai, participando de concursos populares de canto, conquistando prêmios, até assinar com uma grande gravadora, onde registrou algumas de suas principais canções, entre elas: A primavera retorna ao mundo, Vermelho coração partido, Eu tenho um sentimento, A lua e esta saudade, Noite de primavera, Encontro ao acaso.

Ressurgiu como um ícone pop na década de 1980 e continuou cantando, até o fim da vida, com a mesma intensidade que a consagrou..

Yao Lee (1922-2019)

Pela amizade que manteve com Zhou Xuan, ganhou o apelido de “voz de prata”, como se ambas irradiassem um brilho muito raro.

Seu irmão Yao Min foi, provavelmente, o compositor e letrista popular mais importante do século 20 na China. Extremamente prolífico, compôs inúmeras canções, que se tornaram clássicos nas vozes de todas as cantoras que comentamos neste artigo. Irmãos inseparáveis, trabalharam juntos num invejável portfólio para mais de quatrocentas canções.

Com sua personalidade cativante e serena, Yao Lee cantou ininterruptamente até o dia da morte do irmão, em 1967, quando anunciou o fim de sua vida artística e assumiu o cargo de executiva de uma grande gravadora em Hong Kong, onde continuou firme, participando de eventos, apoiando e patrocinando novas cantoras.

Para uma viagem sonora à velha Xangai, acesse o link: http://antiquepopmusic.com