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por Janaina Rossi Moreira  

 

O sentimento de término de ciclo e renovação de esperanças é um fenômeno humano universal na época da passagem de ano, por mais céticos que estejamos ficando e por mais arbitrária que a data pareça ou, de fato, seja. Tal sentimento é expresso de várias formas, sendo a ornamentação uma das mais poderosas e onipresentes. Se entre nós as luzes de Natal já começam a se multiplicar em meados de novembro, na pátria oficial dos fogos de artifício – sobretudo nos meios rurais – a estrela é o 年画, nián huà, pintura típica de Ano-Novo que os chineses penduram em paredes, portas, janelas e até armários. Já o que chamamos Réveillon, Ano-Bom ou Ano-Novo é conhecido na China como Festa da Primavera, e a data da passagem é comemorada um pouco depois, variando a cada ano entre o fim de janeiro e o mês de fevereiro, com base no calendário lunissolar adotado no país. Mas os desejos e os votos são os mesmos: saúde, prosperidade, alegria, amor…

Um tesouro espontâneo

É nesse período, durante a festa tradicional mais importante da China, que os chineses costumam realizar reuniões familiares, trocas de presentes e promover espetaculares comilanças, coisa que os ocidentais de tradição cristã fazem mais comumente no Natal ou no Dia de Ação de Graças. Porém, como é de se esperar quando se fala de cultura chinesa, o festival e as pinturas de Ano-Novo datam de bem antes do nascimento de Cristo. De um tempo em que a escolha do dia para o encerramento de um ciclo e início de outro era bem menos arbitrária do que, como dito acima, parece à sensibilidade moderna. Eminentemente agrícola, a sociedade chinesa de milênios atrás levava uma vida pautada pelas estações do ano, e a primavera, tempo da semeadura e do rebrotar de flores e folhas após o rigor do inverno, trazia uma ideia muito concreta de recomeço e renovação. Surgidos como arte espontânea dos camponeses, os nián huà refletiam de maneira clara os valores, imaginário, sensibilidade e horizontes de esperanças e aspirações desses agricultores. Desvinculados de grandes preocupações, bem como dos ditames da casa imperial, esses artistas do campo tiveram liberdade total ao desenvolver as pinturas, inicialmente como um passatempo para os períodos em que o trabalho na lavoura era mais leve. Nem por isso os resultados ficam devendo em excelência técnica e sofisticação intelectual. O que foi preservado de épocas mais antigas não deixa a menor dúvida quanto ao valor artístico dessas pinturas, além de oferecer um registro inestimável da vida do povo na antiguidade. Mas será apenas a maestria na execução, a exuberância de cores e a graça das formas que os nián huà nos oferecem?

Múltiplas formas, múltiplos conteúdos

Não, isso é só a face mais evidente de uma expressão fascinante do engenho e da habilidade dos seus criadores. Analfabetos em sua grande maioria, eles sabiam se valer das figuras representadas para evocar conteúdos de palavras homófonas ou de pronúncia muito semelhante, criando verdadeiros subtextos pictóricos paralelos às imagens imediatamente captadas pelo olhar. Ou seja, jogando com os desenhos e os nomes das figuras que estes representam, criam-se mensagens ocultas que constituem um atrativo a mais para quem contempla a obra e tenta adivinhar seu conteúdo. Vale dizer que tal conteúdo se refere a ditados que fazem parte do repertório popular, não oferecendo grande dificuldade de desvendamento. Por exemplo: a palavra 鸡 jī (galo) tem pronúncia quase idêntica a 吉 jí (afortunado). Já 莲 lián (lótus) soa igual a 连 (sucessivamente), e 鱼 yú (peixe) tem a mesma pronúncia de 余 (abundância). Coincidências como essas também se dão entre “morcego” e “felicidade”, “caqui” e “todas as coisas”, apenas para citar algumas. Sendo assim, a figura de uma criança abraçada a uma carpa e rodeada de flores de lótus trazia consigo votos de “fartura ano após ano”. A pintura de um garoto usando um ornamento tradicional (chamado 如意 rú yì e homófono da expressão “como desejado”) e dois caquis suspensos também pode ser interpretada como “que todos os desejos se tornem realidade”. Mas esses textos subjacentes não aparecem em todas as pinturas. Existem aquelas que se valem da metáfora e do simbolismo, e seus motivos são geralmente inspirados em lendas, mitos e narrativas históricas populares na China. A carpa saltando por sobre um pórtico é símbolo de sucesso profissional, a peônia, de riqueza, o pêssego, de longevidade, e por aí vai.

Por isso tudo, vemos que a natureza dessas pinturas é profundamente idealista e espiritual. A vivacidade das cores, simples e contrastantes, a quase ausência de espaços em branco, as crianças rechonchudas e sempre sorridentes evidenciam a intenção de incentivar a alegria de viver, de retratar a vida como se espera que ela seja no ano vindouro. A mesma função é cumprida pelas roupas e utensílios, representados sempre novos, e pelos animais vigorosos e plantas vicejantes. Finalmente, essas mesmas razões, aliadas à “escrita” das mensagens subliminares, justificam o descompromisso dessa arte com a conexão lógica entre os elementos retratados. Pessoas, bichos, carpas saltadoras, flores e caquis pendentes do céu ou brotando do chão são usados livremente para pintar a cara da felicidade que todos queremos, em qualquer tempo, longitude e latitude.

A sucessão de centenas, milhares de anos-novos levou à diversificação e ao apuro da arte dos nián huà, e a evolução fez surgir diferentes escolas, cada uma com suas características peculiares. As diferenças entre os nián huà de cada região/escola são inúmeras: dos motivos representados ao processo de produção, passando pelo estilo e até pelo uso das cores. Os desenhos são criados pela técnica da xilogravura, e coloridos após ou durante o processo de impressão. Na aldeia de Yangliuqing, próxima a Tianjin, no norte do país, é possível admirar uma grande coleção das pinturas de Ano-Novo, no museu folclórico que funciona hoje no 天津石家大院 Tiānjīn Shí Jiā Dàyuàn, extraordinária mansão do século XIX. As pinturas de Yangliuqing combinam a tradição herdada dos períodos Song, Yuan e Ming à influência da Academia da Arte Imperial da dinastia Qing, e seu estilo é natural e realista.

Na província de Shandong se encontram dois importantes estilos, o Yangjiabu (Weifang) e o Puhui (Gaomi). O Anuário de Yangjiabu, datado do final da dinastia Ming, está entre as mais famosas pinturas populares da China. Já o estilo Puhui, bastante complexo, acabou se subdividindo em duas escolas: a primeira, mais afim à arte tradicional, utiliza o branco e o preto, enquanto a segunda busca um apelo mais popular, usando e abusando do colorido. Outros estilos que figuram entre os mais célebres são o de Wuqiang, também do Norte, e os de Taohuawu, no Leste, e Foshan, no Sul.

Durante as décadas de 1930 e 1940, as pinturas de Ano-Novo tomaram um rumo curioso na temática e na abordagem formal, desviando-se da tradição idealista. Os nián huà dessa época retratavam cenas de cunho social e histórico, estilo realista e minucioso, evidenciando uma postura crítica por parte dos artistas. Mais uma vez, essas obras confirmavam seu papel de registro histórico, uma vez que a fotografia ainda não havia se popularizado.

Os novos Anos-Novos

Nosso mundo tende cada vez mais a neutralizar as particularidades regionais e uniformizar costumes, culturas e até paisagens. Por isso não é de se estranhar – e sim de se lamentar – que o costume de pendurar as pinturas de Ano-Novo venha rareando progressivamente em metrópoles como Xangai, que já foi um importante polo de produção e consumo dos nián huà. É de estranhar menos ainda que a tecnologia tenha barateado e banalizado o processo de produção, em detrimento do processo artesanal e da qualidade artística. Mas a arte por trás desses trabalhos ainda perdura, e até vem ganhando novo impulso. O desenvolvimento econômico dos últimos tempos tem incentivado colecionadores particulares. Medidas oficiais também vêm sendo tomadas para preservar e divulgar esse legado tão rico e tão chinês. Há dez anos, a já citada pintura Puhui foi tombada como patrimônio imaterial nacional e a cidade de Gaomi promove constantemente simpósios e exposições, sendo que algumas escolas chegaram a incluir a pintura em seus currículos.

De um modo ou de outro, essa preciosa manifestação cultural que atravessou milênios sobreviverá. Não há de ser o mundo globalizado, o deslumbramento frente às facilidades tecnológicas nem o ritmo vertiginoso da vida de nosso tempo a fazer desaparecerem os nián huà. Cada época tem seu espírito, mas a necessidade da fruição da beleza e da autenticidade jamais abandona o coração humano, assim como os eternos anseios por saúde, prosperidade, alegria, amor…