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por Janaina Rossi Moreira

 

Sem a exuberância nem o apelo imediato de tantas outras metrópoles chinesas, a capital de Hubei proporciona ao visitante uma reeducação do olhar e da sensibilidade

“Quer saber a verdade? Gostei de tudo em Wuhan! Só do calor que não…”

“O maior choque que eu tive ao chegar aqui foi não ter sofrido choque nenhum…”

“Olha, eu vivi anos no exterior, mas essa cidade está me fazendo reavaliar o sentido de ‘morar fora’”

Wuhan é a porta de entrada na China para muitos de nós, graças aos programas de intercâmbio promovidos pelo Instituto Confúcio na Unesp em parceria com a Universidade de Hubei. Por não ser das mais atraentes à primeira vista, é menos óbvia também. Objetivamente falando, é lá que a moderna história da China deu os primeiros passos, e é lá que se pode viver e ver em close o que o país é hoje no plano geral: lugar cheio de contrastes, em ebulição, construção e transformação incessantes. Agora, falando subjetivamente, andar pelas ruas dessa capital acaba sendo um rito de passagem, uma iniciação. Enquanto as cidades do mundo estão ficando todas cada vez mais parecidas umas com as outras, Wuhan ainda não se parece com nada a não ser com ela mesma. Milênios se sobrepõem, e a rosa dos ventos se despetala por completo. Merece então receber nestas páginas uma abordagem diferente. As citações que abrem esta matéria são de três brasileiros que acabam de descobrir a cidade, e que emprestaram sua voz, suas “tintas” e suas reflexões para que pudéssemos dar ao leitor/visitante algumas pistas para descobrir a sua Wuhan.

Retrato falado

Fosse uma pessoa, a cidade seria um adolescente ainda se acostumando às últimas transformações do corpo e da cabeça, a equilibrar-se em pernas de altura nova, e sem parar de caminhar – ou correr. Wuhan nasceu em 1927, da união das antigas cidades de Wuchang, Hanyang e Hankou. Foi batizada pela junção do início do nome da primeira com o início dos nomes das outras duas. Wuchang, a mais antiga, foi por séculos um grande centro de educação e cultura, sobretudo na área das artes. Foi também capital provincial na dinastia Yuan (1271-1368), e legou à cidade de que hoje é um distrito parte da atmosfera fortemente acadêmica – além da já citada Universidade de Hubei, abriga a Universidade de Wuhan, entre outras importantes instituições de ensino superior em diversas áreas. É lá em Wuchang, ainda, que está situada a joia da cidade, a 黄鹤楼 Huáng Hè Lóu, ou Torre do Grou Amarelo. Construída em 223, sua estrutura atual data de 1981 – foi reerguida cerca de 20 vezes. Tida como uma das Quatro Grandes Torres da China, a esplêndida construção (que oferece, do topo, uma vista igualmente esplêndida) inspirou versos do poeta Cui Hao na dinastia Tang (618-907), que ficaram famosos no mundo inteiro. Por absolutamente todos os motivos imagináveis, é um passeio imperdível não só para quem está em Wuhan como para todos que visitam a China.

Hanyang era um porto ativo já na dinastia Han. Situado entre os rios Han e Yangtzé, liga-se a Wuchang e Hankou por meio de pontes. Já Hankou, a maior delas, chegou a ser considerada uma das quatro principais cidades da China, isso nos períodos Ming (1368-1644) e Qing (1644-1912). Seu porto era o mais movimentado do interior e, no século 19, como consequência das Guerras do Ópio (1839-1860), foi dividida em concessões estrangeiras e chegou a se tornar a segunda maior cidade do país. Testemunhas desse período são os diversos edifícios de inspiração europeia, e especialmente o “bund” de Hankou. “Bund” é uma palavra que os ingleses criaram para designar um barranco de rio, uma área elevada de terra em torno de um campo de arroz ou um reservatório projetado para armazenar a água. Logo, por extensão de sentido, virou atracadouro, daí avenida comercial à beira-rio e adjacências. Os bund de hoje costumam conservar edificações de estilo europeu do início do século passado. O mais famoso é, de longe, o de Xangai, com prédios que lembram a Nova Iorque da década de 1930. O de Hankou, menorzinho, tem ruas e passeios arborizados, ladeados por belos edifícios no estilo art déco.

A paulista Karine está desde o início de setembro na Universidade de Hubei, onde estuda e mora – há outros 16 brasileiros fazendo o mesmo curso que ela, com duração de um ano. Entre o desembarque no aeroporto e o traslado ao câmpus, sentiu os primeiros impactos: “Achei a cidade escura à noite; as dimensões são alargadas, mas a sensação é de absoluta segurança”. Entusiasmada com o novo endereço, ela me disse que pretendia aproveitar o primeiro feriadão para explorar Wuhan. Mas já vem documentando sua viagem em textos e fotos, sobretudo para ajudar outros brasileiros interessados em – ou prestes a – seguir os seus passos.

Outro que praticamente só tem elogios à cidade é o cinegrafista Erbert Castilhos. Falante e entusiasmado, o rapaz de 30 anos ficou apenas um mês na China, a maior parte do tempo na capital de Hubei. Concorda com quase todos os pontos levantados por Karine, mas destaca que “a cidade é toda brilhante, tem leds por toda parte! E eu sou um vaga-lume, adoro essas luzinhas”.

Ambos se dizem surpreendidos com a amabilidade e cortesia locais. Logo nos primeiros dias, uma senhora que trabalha na cantina da universidade se mostrou bastante preocupada com a alimentação de Karine: “Acabei arranjando uma mãe aqui! Ela um dia se aproximou dizendo que havia reparado que eu não estava comendo verduras o suficiente. Foi buscar algumas e colocou no meu prato”, conta a economista. Erbert acabou ficando amigo de outra senhora, que não só ajudou o grupo do brasileiro a conseguir um táxi como pagou o serviço. “Ah, depois vocês pagam…”, disse a nova amiga. É que meus conterrâneos estavam com dificuldade em usar o DiDi, aplicativo equivalente ao Uber (mais justo seria dizer o contrário, pois a empresa chinesa é a maior plataforma móvel de transporte urbano do mundo, e este ano firmou parceria com a brasileira 99, ex-99Táxis).

Retrato impressionista

Mas se Wuhan fosse um quadro, bem podia ser uma pintura impressionista. Sem contornos reais, as ágeis pinceladas fazendo-a parecer sempre em movimento. O linguista Oarine Martins sintetiza Wuhan como uma miniatura do que é a China atual. A curta vivência por lá foi tão intensa e o deixou tão perplexo que fica difícil traduzi-la em palavras. Mesmo sendo ele um… linguista! Aliás, especialista em língua e literatura francesas, morou na França por quase uma década, mas comentou mais de uma vez durante a conversa que, após Wuhan e a China, está “reavaliando o conceito de ‘morar fora’”.

Sobre o status de “China em pequena escala” que Oarine atribui a Wuhan, podemos dizer que sua intuição é válida. O papel da capital de Hubei na queda da dinastia Qing (1644-1912) e na instauração do regime republicano é notório. O professor de Ciências Políticas e Econômicas da Unesp Luís Antonio Paulino salienta que o marco inicial do movimento foi a explosão, em Hankou, de um local de fabrico de bombas pelos revolucionários. Além disso, a região sempre teve importância estratégica, pela localização, por ser um polo logístico, e até pelo fato de ser um grande centro universitário.

Quem quiser enveredar pela faceta mais histórica de Wuhan pode visitar o Museu da Revolução Xinhai. Compacto, mas com um acervo bastante significativo, exibe por exemplo a famosa foto do último imperador, Pu Yi, já idoso, cumprimentando o soldado que teria feito o primeiro disparo no levante que derrubou o sistema imperial. A foto tem um caráter emblemático porque, conforme atesta o professor Paulino, “em comparação com outras regiões do mundo, a transição do regime imperial para o republicano na China [em 1911-1912] foi um processo relativamente pacífico”.

Por falar em museus, Wuhan possui um belo cardápio de exibições, para gostos variados. Além do Museu da Revolução, o imponente Museu da Província de Hubei também vai agradar aos que gostam de história com  ampla gama de exposições – reserve um bom tempo para a visita. Um dos destaques é o acervo arqueológico. A cidade ainda conta com museus de arte, ciência e tecnologia, uma filial do Madame Tussaud e até um museu de sexologia, para mencionar apenas alguns dos mais cotados e curiosos.

Tríplice olhar sobre a cidade tríplice

Eu disse logo no início que essa grande cidade – a maior – da China Central dá ao seu visitante a oportunidade de viver um verdadeiro rito de passagem. As reflexões de Oarine dão indícios de como essa “China em miniatura” pode abrir novas janelas para o mundo que há dentro e fora de nós. As primeiras experiências de Karine mostram que a gigantesca metrópole abriga gente carinhosa como a do interior, capaz de zelar pela alimentação de uma estrangeira recém-chegada. Por fim, Erbert resume sua experiência em Wuhan: “Acolhido. É isso. Eu me senti acolhido”.