Por Christian Oliveira

Parte integrante da medicina tradicional chinesa (MTC), a fitoterapia vem conquistando cada vez mais adeptos em todo o mundo, em função de sua eficácia no tratamento de inúmeros males e de seus reduzidos efeitos colaterais.

A fitoterapia chinesa (FC) emprega princípios ativos de origem vegetal, animal, mineral e fúngica. Os de origem vegetal correspondem a mais de 80% de toda a FC. Mais de três mil substâncias medicinais foram descritas em livros clássicos antigos e, até hoje, mais de 12.800 já foram identificadas.

As ervas do gênero Artemisia – que possui cerca de 480 espécies reconhecidas – estão entre as mais importantes da MTC. Dependendo da indicação e da espécie, podem ser administradas por via oral ou indicadas para uso tópico na forma de óleos, emplastros ou, ainda, através do calor gerado por sua combustão (moxa).

Como existem muitas variedades de Artemisia, é importante que seu uso seja indicado por um profissional que as conheça, pois ainda que os efeitos colaterais sejam raros, a atermísia é capaz de provocar vasodilatação, convulsões, reações alérgicas e até abortamento.

Moxa e moxibustão

Um dos mais conhecidos usos da artemísia na MTC se dá pela combustão da moxa, uma mistura de duas espécies dessa erva: a Artemisia sinensis e a Artemisia vulgaris. Daí o nome da técnica: moxibustão (艾灸 ài jiǔ). Ela se originou na China e posteriormente se espalhou pelo Japão e por outros países asiáticos. O relato mais antigo a respeito da técnica terapêutica é encontrado no Tratado das dificuldades, atribuído a Bian Que – cujo nome verdadeiro era Qin Yueren –, médico chinês que viveu por volta de 500 a.C., no período dos Reinos Combatentes. Ele acreditava que a moxa poderia ser usada para restaurar o equilíbrio do corpo, eliminando excessos e preenchendo deficiências.

A MTC baseia-se no princípio de que o corpo humano possui vários canais (ou meridianos) que o percorrem, através dos quais flui a força vital (气 ). Qualquer obstrução que prejudique esse fluxo pode causar doenças. Na moxibustão, a artemísia é queimada próximo à pele (geralmente em um ponto de acupuntura), para promover um aquecimento capaz de desobstruir os canais e propiciar a cura. O calor também é usado para remover agentes causadores de infecção que causam doenças. O tratamento pode ser empregado de forma direta ou indireta. A moxibustão direta é realizada com o contato da erva em combustão e a pele. Uma vez que tal procedimento pode causar bolhas ou cicatrizes, é menos utilizado pelos terapeutas. Na moxibustão indireta, o bastão de moxa é mantido a uma distância entre um e dois centímetros da pele. Também é possível aplicar a erva em combustão sobre fatias de gengibre, camas de sal, na extremidade de uma agulha, ou dentro de uma caixa de madeira com orifícios por onde o calor atinge a pele.

Sob a ótica da MTC, a moxibustão deve ser aplicada em pessoas que têm uma condição de frio ou estagnação do qi, como mencionado anteriormente. Mas a medicina ocidental também indica esse tipo de terapia para diversos problemas, entre os quais mialgias, estresse, ansiedade, depressão, constipação, insônia, diarreia, dores nos joelhos ou nas costas, problemas respiratórios, digestivos e menstruais, resfriados e sinusite. Não se deve, porém, usar moxibustão quando o paciente é alérgico a odores fortes ou se apresenta febre, queimaduras, feridas abertas ou traumas recentes. No caso das grávidas, há de se ponderar em que locais e por quanto tempo aplicar. Para quem não é alérgico, mas se incomoda com o cheiro, ou em aplicações realizadas em locais com pouca ventilação, é possível optar pela “moxa carvão”, que não produz odor nem fumaça.

Com o avanço tecnológico, surgiram equipamentos que substituem a queima da Artemisia pelo calor gerado eletricamente. A “moxa elétrica” se vale de ondas eletromagnéticas geradas por uma placa com propriedades minerais, capaz de ativar o metabolismo, diminuir as inflamações e as dores. Tem sido muito utilizada por não produzir cheiro nem gerar riscos de queimadura, além de cobrir uma área de ação maior no corpo, o que auxilia o tratamento de lombalgias e contraturas musculares, por exemplo.

Artemisia contra a malária

Grave doença infecciosa, a malária é transmitida pela picada da fêmea do mosquito Anopheles infectada por protozoários do gênero Plasmodium. Endêmica em regiões tropicais e subtropicais, estima-se que seja a causa de cerca de 660 mil mortes por ano, e ainda não existe uma vacina contra ela. A doença é tratada como emergência médica, pois a demora em iniciar o tratamento pode ocasionar o acometimento de órgãos vitais e levar o paciente ao óbito. Ou seja, ainda em nossos dias, a malária é um problema de saúde sério, que gera grandes impactos em nível global.

Tu Youyou, é uma renomada cientista e fitoquímica chinesa conhecida sobretudo pelos inúmeros estudos a respeito da ação da artemísia no tratamento da malária. Estudou no Departamento de Farmácia do Beijing Medical College e, após a formatura em 1955, foi escolhida para se juntar ao Instituto de Matéria Médica na Academia de Medicina Tradicional Chinesa. De 1959 a 1962, participou de um treinamento em tempo integral sobre o uso da MTC, voltado para pesquisadores com conhecimento da medicina ocidental. A fusão desses conhecimentos desencadearia, nos anos subsequentes, a descoberta de vários medicamentos modernos.

Em 1969, Tu foi nomeada para liderar o “Projeto 523”, em um esforço exaustivo para desenvolver um tratamento mais eficaz para a malária. O projeto foi iniciado para atender a uma demanda na Guerra do Vietnã (1955-1975), onde a doença havia custado a vida de inúmeros soldados. Tu e sua equipe de pesquisadores começaram identificando plantas de suposta atividade antimalárica, com base em informações de remédios populares e outras drogas descritas em textos médicos chineses antigos. Foram identificadas aproximadamente 640 plantas em mais de duas mil receitas com esse potencial. Em seguida, testaram-se em camundongos infectados 380 extratos de cerca de 200 espécies de plantas para apurar a capacidade de eliminar o plasmódio. Desses extratos, um em especial, obtido da Artemisia annua (青蒿 qīnghāo), mostrou-se especialmente promissor. Mas os textos antigos da MTC diziam pouco sobre essa planta. Em 1971, depois de refinar o processo de extração, Tu e seus colegas isolaram com sucesso um extrato não tóxico da mesma Artemisia, capaz de eliminar os parasitas de camundongos e macacos infectados. Em seguida, os estudos clínicos foram extendidos a pacientes com malária e, nestes, os extratos reduziram rapidamente a febre e os níveis de parasitas no sangue. Um ano depois, a equipe de Tu Youyou conseguiu isolar o composto ativo dos extratos, designando-os de artemisinina (青蒿素 qīnghāosù).

Principais Tipos de Artemísia

As descobertas científicas de Tu alcançaram grande repercussão internacional no início dos anos 1980. Em meados dos anos 2000, a Organização Mundial da Saúde recomendou o uso de terapias medicamentosas à base de artemisinina como tratamento de primeira linha para a malária. Tu continuou sua investigação  e desenvolveu um segundo composto antimalárico, a diidroartemisinina, que é um metabólito bioativo da artemisinina. Em 2011, ela recebeu o Prêmio de Pesquisa Médica Clínica Lasker-DeBakey por suas contribuições para o tratamento da malária e, em 2015, recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina (compartilhado com o parasitologista William Campbell e o microbiologista Omura Satoshi).

Em tempo: apesar do avanço científico no tratamento da malária com o extrato da artemísia, somente um médico pode indicar o medicamento mais apropriado para um paciente, bem como a dosagem correta e a duração de seu uso.