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por Thiago Minami

 

De olho no mercado externo e na classe média crescente, as vinícolas locais começam a investir em qualidade

Há menos de uma década, a ideia de tomar vinho chinês pareceria tão irreal quanto a de afagar um panda brasileiro. Era feito com uvas de mesa, das quais se produz um líquido roxo e adocicado, quase mais adequado às lancheiras das crianças que às mesas de jantar. As elites preferiam rótulos importados, muito caros, antes para demonstrar status social que para apreciação.

Os últimos cinco anos têm rendido indícios de que a história está mudando. Primeiro chinês a atrair a atenção de enófilos pelo mundo, o Ao Yun, lançado no começo de 2017, tem magnetizado as atenções ao redor do globo. O crítico Nick Passmore, da revista americana Forbes, descreve uma amostra da safra 2013 como “uma combinação intrigante de aroma terroso aveludado emanando do copo em glória e deleite sutil, repleto de notas agradáveis de violetas que sugerem cedro, tabaco seco e sândalo, todos indicativos do que despertará na boca em 10? 20 anos?” Mais objetivo que a descrição em palavras é o preço da garrafa: 300 dólares nos Estados Unidos.

É fácil explicar por que o Ao Yun custa tão caro. Trata-se de um empreendimento de risco da gigante francesa Moët-Hennessy, proprietária dos famosos Chandon e Veuve Clicquot. Ciente de que clima e solo chineses não costumam ser os mais apropriados para vinhos (um problema semelhante ao enfrentado no Brasil), a empresa empenhou-se em selecionar o melhor “terroir”, como os enólogos denominam o conjunto de características geográficas e humanas envolvidas na produção vinícola. Encontrou um ponto remoto nas montanhas de Yunnan, no sudoeste do país, a três horas do centro urbano mais próximo. Empregou agricultores locais, adaptados às condições dos entornos, que trabalham com uvas incialmente plantadas pelo governo no início dos anos 2000. Mas o que mais chama a atenção nessa história é que, na avaliação da Moët-Hennessy, o mundo está pronto para pagar caro num vinho chinês.

Sim, ter uma todo-poderosa das bebidas por trás ajuda. Ainda assim, a decisão de produzir um vinho com terroir chinês continua sendo ousada. Do ponto de vista do negócio, reflete o altíssimo interesse que os grandes produtores mundiais de vinho têm no país. Ainda que a maioria dos chineses continue torcendo o nariz para a bebida, estima-se que o consumo venha crescendo 15% anualmente. Em 2015 o país era o quinto maior bebedor de vinho do mundo em volume total, com 16 milhões de hectolitros ao ano, à frente de Espanha e Argentina. Os chineses só perdem dos espanhóis em áreas dedicadas ao plantio de uva – boa parte, porém, é voltada a variedades de mesa, impróprias para vinho de boa qualidade. Por isso, a produção da bebida fica ao redor de um quinto da italiana, a maior do mundo. O maior desafio, no entanto, permanece o da qualidade.

Vinhos podem ser do tipo “blockbuster”, feitos para um público amplo, que deseja pagar pouco. Ou podem ser elaborados com cuidado e estilo, esculpidos ao gosto do vinicultor, em escala reduzida, para consumidores dispostos a gastar mais. Os três produtores mais famosos da China – Great Wall, Zhangyu e Dinasty – estão investindo em obter vinhos comerciais em padrão mais próximo ao internacional. Já vinícolas menores, como a Kanaan, em Ningxia, e a Grace Vineyard, em Shanxi, querem mais elegância e personalidade. O desafio é cultivar uvas de qualidade superior. O inverno intenso de regiões como Ningxia, Shanxi e Xinjiang obriga os agricultores a enterrar as uvas para mantê-las vivas. Algumas são colhidas cedo demais, antes de atingirem a quantidade adequada de açúcar. Já a província de Shandong tem verões excessivamente úmidos, o que propicia a propagação de fungos e pragas. Outra característica marcante é o sistema de produção da fruta, em terras de propriedade coletiva. Agricultores individuais trabalham ali e decidem para quem querem vender as uvas, o que pede das empresas um esforço extra para construir uma relação de confiança com os trabalhadores.

Tradição que retorna

Antes que possam acusar os chineses de ocidentalização, vale ressaltar que o vinho já faz parte da cultura local há séculos. A produção da bebida teria começado antes mesmo da era Cristã, durante o governo do imperador Wu, no período Han (140-88 a.C.). Era consumida apenas por nobres e oficiais de altos cargos, aos quais costumava servir de suborno – conta-se que um homem chamado Meng Tuo, em Fufeng, presenteou um eunuco chamado Zhang Rang com um hu (cerca de 20 litros), para conseguir uma posição importante no governo local. Foi só na dinastia Tang (618-907) que o vinho se difundiu entre classes mais baixas, sobretudo ao redor das regiões produtoras, no centro-norte do país. Motivou até poetas como Wang Han a escrever versos em sua homenagem: “Bom vinho – um copo de noturna claridade / beber em pressa ao alaúde entre cavalos”, diz um trecho da Canção de Liangzhou (em tradução de Ricardo Portugal e Tan Xiao). “Se caio bêbado na areia não se riam / passou-se o tempo – quem da guerra voltaria?”, continua.

Nos séculos seguintes, o consumo do destilado baijiu, o enfraquecimento político do Oeste e o impacto da religião muçulmana no Noroeste reduziram a viticultura a algumas poucas áreas. O interesse pelo vinho só retornaria no fim da dinastia Qing, a última. Em 1892, o empresário Zhang Bishi fundou a vinícola Changyu, na província de Shandong, que marcou o início da manufatura de vinho em larga escala. Tradicionalmente, o tinto é o favorito dos chineses, de preferência no estilo bordeaux. Só em 1979, a Great Wall produziu a primeira garrafa de branco seco, com a uva local longyan.

Mas foi em 2004 que se deu o ponto de virada. O hábito de misturar vinho com suco foi abolido, e as empresas precisaram adaptar-se aos padrões internacionais. Desde então, empresários grandes e pequenos têm se esforçado para ampliar o consumo de vinho dentro da China. Assim como na época imperial, era costumeiro utilizar a bebida como suborno, sobretudo as importadas a preços exorbitantes. Esforços para combater tais práticas nesta década levaram a um decréscimo no consumo de itens de valor elevado. Mas um outro tipo passou a aumentar em vendas.

Em crescimento contínuo, a imensa classe média urbana quer rótulos a preços acessíveis que ofereçam qualidade razoável. Segundo a consultoria inglesa Wine Intelligence, de 2012 a 2015 o número de consumidores nesse perfil dobrou. Boa parte constitui-se de mulheres abaixo dos 30 anos, que têm um longo período pela frente para se tornarem bebedoras contumazes de vinho. Um prato cheio tanto para investidores locais quanto estrangeiros – por isso, os grandes produtores mundiais, como Chile e Austrália, estão de olho para aumentar o máximo possível as exportações para o gigante asiático.

É curioso observar que não se trata de uma via de mão única. Empresas chinesas também estão investindo na compra de vinícolas estrangeiras, em países como Espanha, Argentina e Chile. Além da produção de rótulos locais, vinhos chineses como o Changyu Noble Dragon Cabernet Gernischt e o Chateau Changyu Moser XV Cabernet Sauvignon já estão à venda em redes de supermercados na Europa, por volta de 10 euros a garrafa. Quem imaginaria algo assim há dez anos?

Sabores combinados

Poucas bebidas casam tão bem com as refeições quanto o vinho. Macarronadas italianas, cozidos franceses, aperitivos espanhóis… Mas o que dizer de um pato de Pequim ou um tofu com carne moída ao molho apimentado?

Para pratos asiáticos, o costume é a harmonização com vinhos brancos. A culinária chinesa frequentemente encontra a uva Gewürztraminer, da Alsácia, que produz toques picantes e aroma de lichia. No entanto, os sommeliers não estão mais pensando duas vezes em sugerir tintos para acompanhar pratos picantes e substanciosos, com carne de porco ou boi, ou outros mais fortes à base de pato. Não passa de mito a noção de que ingredientes como molho de soja, pimenta e especiarias potentes rejeitam bons vinhos.

Pelo tamanho de sua população, o mercado chinês ainda é pequeno se comparado ao dos Estados Unidos, por exemplo, maiores consumidores do mundo. Mas a perspectiva de uma classe média cada vez mais interessada em vinho, aliada ao aumento progressivo de qualidade, tem tudo para fazer crescer aos céus o consumo. Assim como no poema da dinastia Tang, vai sobrar gente caída no campo de batalha, sob os efeitos irresistíveis de uma das bebidas mais apreciadas na história da humanidade.