por Janaína Camara da Silveira

 

Uma cidade de ruas estreitas, casas de um só pavimento e fronteiras quase no limiar da Cidade Proibida: é essa a Pequim vivida e contada por Labienno Salgado dos Santos. Enviado em missão diplomática à China em 1918 como encarregado de negócios, o brasileiro residiu no país por dois anos. Há quase um século, acompanhado da mulher, aportava na capital que então possuía cerca de um milhão de habitantes. Esse número correspondia a menos de cinco por cento do contingente atual, que faz de Pequim uma das metrópoles mais populosas do mundo.

Atento, curioso e mesclando análises econômicas e políticas à crônica social, Labienno escreveu Visões da China. Ao que se sabe, trata-se do segundo livro de um brasileiro por aquelas bandas. O primeiro, A China e os Chins, do também diplomata Henrique Carlos Ribeiro Lisboa, data de 1888 (veja quadro). Já Santos publicou o seu em 1944, décadas após deixar o país asiático, onde viveu dos 24 aos 26 anos, ainda no início da carreira.

Não era só o autor um jovem. A própria China dava os primeiros passos em um novo regime, que imprimiria à Capital do Norte um caráter mutante que até hoje se mantém. O texto é uma deliciosa descoberta do país experimentando, no começo do século passado, o alvorecer da República. A dinastia Qing (1644 – 1911) já havia acabado, mas, para se ter uma ideia, o último imperador, Pu Yi (1906 – 1967), só deixou o palácio – chamado algumas vezes pelo diplomata brasileiro de “Cidade Interdita” – em 1924, junto com grande parte da corte. O diplomata e o imperador eram vizinhos, mesmo após o fim do regime imperial.

A China de hoje preserva um quê de enigmática, mas há cem anos parecia muito, muito mais distante. Se, num tempo de informações instantâneas e em que se pode vencer a distância São Paulo–Pequim em menos de 30 horas, os olhos ocidentais ainda buscam ajustar o foco sobre o país para tentar compreendê-lo, imagine naquela época.

Quando Labienno e a esposa, Elinah, pisaram em solo chinês, o caminho era pelos mares, e a viagem durava quase quatro meses. O deslocamento já era uma experiência em si: graças às inúmeras escalas, o casal esteve, entre outros países, nos Estados Unidos, no Japão, em Cingapura e no Ceilão (atual Sri Lanka), tanto na ida como na volta.

No trecho entre o Japão e a China, um susto: um torpedeamento obrigou os passageiros a permanecer em alto-mar em embarcações de apoio, enquanto o navio era consertado. “Ele ficou segurando o malote diplomático no colo”, conta Eliná Mendonça, neta do casal. Ele estava em Montevidéu quando soube que iria para a China. No início, a ideia não caiu nada bem, como ele mesmo conta na introdução do livro. Só do outro lado do mundo é que perceberia o quanto o país asiático é fascinante. “Vovô foi um apaixonado pela China, para onde voltou antes de se aposentar”, lembra Eliná.

Santos e a mulher – de quem Eliná herdou o nome, embora o da avó fosse grafado “Elinah” – tiveram apenas uma filha, Célia, nascida em Roma (o casal viveu em Buenos Aires e depois na capital italiana, na sequência da viagem à China). Diferentemente dos pais, Célia optou por uma família grande, e teve cinco rebentos. As crianças foram criadas no Brasil, e a convivência com os avós se dava sempre nas férias. A neta continua: “Ele falava 14 línguas, era um profundo conhecedor de música clássica. Depois da China, sempre manteve os laços com o país. A minha avó também, apaixonada, entre outras coisas, pela Medicina Tradicional Chinesa, com a qual chegou a ser tratada quando vivia em Pequim.”

Muitos dos registros do período chinês estão no livro – Eliná guardou dois exemplares em papel, e um de seus irmãos possui fotos daquela época. Mas quem tem o prazer de ler ou apenas folhear Visões da China também pode espiar um pouco do país asiático de cem anos atrás: as páginas, recheadas de imagens, servem de guia num passeio pelo tempo.

Labienno Santos morava no Bairro Diplomático, região em que complexos de prédios para os estrangeiros se alinhavam lado a lado, bastante próximos ao que hoje é a Praça da Paz Celestial, no coração da cidade. À época, eram esses os limites do centro do poder. O diplomata conta que vivia quase ao lado do portão Qianmen, “as célebres portas da cidade”, com a “arquitetura imponente dos antigos castelos de defesa”.

No período imperial, Qianmen (literalmente “portão da frente”) era uma das principais passagens no muro que dividia a “Cidade Interior”, um imenso quadrilátero murado exclusivo dos nobres e altos funcionários, da “Cidade Exterior”, esta reservada aos plebeus. No lado de fora do portão, estendia-se uma vibrante área comercial; no lado de dentro, onde hoje se abre a Praça Tian’anmen, uma via reta conduzia à entrada da “Cidade Imperial”, no centro da “Cidade Interior”. Atualmente, tudo isso é o coração da capital chinesa, e Qianmen empresta o nome a uma das estações da linha de metrô que circunda o centro de Pequim, percorrendo os 23 km do traçado dos antigos muros da “Cidade Interior” (demolidos nos anos 1960 para dar lugar a amplas avenidas).

Outros marcos aparecem na descrição dos limites da Pequim que Labienno conheceu, hoje vistos como centrais, jamais limítrofes: “Agora, o vento é impetuoso, e a poeira não nos permite distinguir as construções mais distantes que nos são mencionadas: a Torre do Sino ao lado da Torre do Tambor, a Missão Católica de Pei-tan [Beitang], a cargo dos padres franceses lazaristas e, no extremo norte da cidade, o Templo de Confúcio e Yung-ho-Kung [Yonghegong], o velho mosteiro budista”, escreve. O templo do então extremo norte é uma das atrações na área de Guozijian, endereço obrigatório para quem quer conhecer a arquitetura da capital imperial.

Viajar pelas páginas do livro, aliás, dá a dimensão de quanto a vida mudou por lá. A cidade que ficaria conhecida pela profusão de bicicletas nas décadas de 1970 e 1980 já dava naqueles tempos sinais de que pedalar seria mesmo uma febre: “Os riquixás, as carretas, os carrinhos de mão e as liteiras, que concorrem para o aspecto original destas ruas de Pequim, não são mais os únicos meios de transporte, aos poucos, vão cedendo lugar às bicicletas que, às centenas, circulam guiadas por mãos hábeis, aos automóveis, que os chineses ricos apreciam”. Hoje, andar de bicicleta é novamente moda pequinesa, mas agora, por meio de serviços de aluguel em estações espalhadas pela cidade.

Nos tempos do casal Salgado dos Santos, a economia já andava em ritmo acelerado. Em 1918, Labienno escrevia sobre o fato de haver muitas mudanças em pouco tempo no desenvolvimento chinês, apesar do modesto salário que a maior parte da população recebia. O cozinheiro do diplomata, a quem este se refere apenas como Li, ganhava o equivalente a dezesseis dólares por mês. Ainda assim, conforme o relato, não poupou nas celebrações de casamento da filha.

Os festejos e ritos que Santos testemunhou duraram um mês e, segundo o autor, “o que chama a atenção é a ausência de oficial de registro civil ou de sacerdote na celebração de um casamento entre os chineses”. Não por falta de pompa ou de respeito. É o mesmo diplomata quem conta que, durante o cortejo da noiva até a casa dos parentes do noivo, ninguém ficava à frente nas estradas. Nem mesmo o imperador que, como vimos, estava no poder até poucos anos antes. Porém, apesar de todos os costumes e tradições, o casamento já ia mudando. Descobrimos no livro que, na época, os jovens já não se casavam aos 14, 15 anos, mas numa idade mais “avançada”.

A China era um país em transformação, mas que mantinha sua identidade. Poucos duvidam de que essa ainda é a tônica por lá. E, apesar de tão distante e diversa, sempre surpreende os estrangeiros por revelar como o mundo é pequeno, e por seu poder de suscitar memórias e histórias.

A China e os Chins

O primeiro livro de um brasileiro na China foi publicado em 1888, de autoria do diplomata Henrique Carlos Ribeiro Lisboa (李诗圃 o nome chinês dele), ex-secretário da Missão Especial do Brasil naquele país. A missão viajou à Ásia para conhecer o estilo de trabalho dos chineses, num momento em que o Brasil abria as portas para novos imigrantes.

Disposto a conhecer o povo chinês, o autor acabou por produzir um painel socioeconômico da terra que visitava. Não eram só as pessoas que chamavam a atenção, mas também a organização social, o mercado e as trocas com o exterior, além dos aspectos culturais. As tintas foram as mais otimistas e positivas.

Lisboa voltou encantado com o que viu, como se percebe quando afirma que a China pode ser um exemplo para o governo brasileiro: “Se, com efeito, fosse dado aos nossos políticos e escritores ir à China ou aos países que gozam do benefício do trabalho livre chinês, a fim de observá-lo de perto, não haveria nenhum, estou bem convencido, que deixasse de ficar impressionado com o que visse, constituindo-se não poucos deles em centros de pregação ativa e convencida em favor da ideia que em si resume a solução mais pronta de todas as dificuldades econômicas do Brasil”, escreve o diplomata.

A missão de Lisboa à China foi decidida em 1879 e conduzida por Eduardo Callado e Arthur Silveira da Mota. O grupo chegou a Hong Kong, e foi dali que ingressou no país, via Cantão. Já nos primeiros dias, a ligação com Macau saltou aos olhos, com todo o vigor que a presença portuguesa tinha nos negócios, na língua, na dinâmica do lugar. É que Hong Kong havia sido declarado recentemente porto franco, o que acabou por atrair muitos dos estabelecimentos de Macau. Os próprios macaenses eram vistos de forma distinta por ali, graças às habilidades multiculturais. Lisboa escreve o seguinte sobre os moradores da península: “Conhecem o dialeto de Cantão, aprendem os outros com facilidade e estão afeitos aos hábitos chineses, o que os torna excelentes intérpretes e compradores; não ambicionam, como os europeus, reunir caudais para retirar-se do país; são modestos nas suas pretensões e só almejam viver e morrer na sua pátria querida, a China e Macau. Tomaram do chin a modéstia, a urbanidade; do português a perseverança, a frugalidade. São simpáticos, apreciados por chins e estrangeiros e respeitados”.

Entrando na China, os traços da cultura portuguesa foram desaparecendo, pouco a pouco, para dar lugar a um cenário e a um clima locais. Lisboa conta da hospitalidade e carinho com que eram recebidos os estrangeiros em missões pacíficas, aos quais eram dadas liberdades de comércio e de culto.

O livro foi reeditado pela Fundação Alexandre Gusmão (Funag) em 2016, clique aqui para a íntegra em PDF na internet em português.